23.5.09

Sermão de Santo António aos Peixes




Tenho acabado, Irmãos Peixes, os vossos louvores, e repreensões, e satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações de sal, posto que do mar, e não da terra: Vos estis sal terrae. Só resta fazer-vos ~ua advertência muito necessária, para os que viveis nestes mares. Como eles são tão esparcelados1, e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem, e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar, e a terra se empobrece. Importa pois, que advirtais, que nesta mesma riqueza tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes, ficam excomungados, e malditos. Esta pena de excomunhão, que é gravíssima, não se pôs a vós, senão aos homens; mas tem mostrado Deus por muitas vezes, que quando os animais cometem materialmente o que é proibido por esta Lei, também eles encorrem, por seu modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam a definhar, até que acabam miseravelmente.
Mandou Cristo a S. Pedro, que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe, que tomasse acharia ~ua moeda, com que pagar certo tributo. Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era o primeiro do preço dele, e dos outros podia fazer o dinheiro, com que pagar o tributo, que era de ~ua só moeda de prata, e de pouco peso, com que mistério manda logo o Senhor, que se tire da boca deste peixe, e que seja ele o que morra primeiro, que os demais? Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda2 no fundo do mar, nem têm contratos com os homens, donde lhes possa vir dinheiro: logo a moeda, que este peixe tinha engolido, era de algum navio, que fizera naufrágio naqueles mares. E quis mostrar o Senhor, que as penas, que S. Pedro, ou seus sucessores fulminam contra os homens, que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes por seu modo as encorrem, morrendo primeiro que os outros, e com o mesmo dinheiro, que engoliram, atravessado na garganta. Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara para o mar! Para os homens não há mais miserável morte, que morrer com alheio atravessado na garganta; porque é pecado de que o mesmo S. Pedro, e o mesmo Sumo Pontífice não pode absolver. E posto que os homens encorrem a morte eterna, de que não são capazes os peixes, eles contudo apressam a sua temporal3, como este caso, se materialmente, como tenho dito, se não abstêm dos bens dos naufragantes.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes.


Notas:
1 mares perigosos para a navegação
2 não cunham moedas
3 morte


I

1. Situa o texto na estrutura externa e interna da obra.

2. Através deste excerto, mostra que o sermão é alegórico.

3. O pregador afirma que só lhe falta fazer uma advertência.
3.1 Em que consiste?

4. «Mandou Cristo a S. Pedro, que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe, que tomasse, acharia ua moeda» (l. 9).
4.1 Com que intenção Vieira recorre a este exemplo?

5. Identifica o recurso estilístico presente na frase «Oh que boa doutrina era esta para a Terra, se eu não pregara para o mar!» (l. 17).
5.1 Explicita o seu valor expressivo.

6. Refere a tese em que assenta a argumentação do orador, neste excerto.

7. Contextualiza histórico-social e politicamente este sermão.


II

Redige um texto expositivo-argumentativo defendendo e/ou refutando uma das seguintes teses:
– O «polvo» é o mais perigoso de todos os seres.
– Os «pegadores» são mais nocivos que os «voadores».


Nota: qualquer das teses deve ser aplicada à sociedade em que te integras.