16.5.09

Sermão da Sexagésima


TEXTO


Fez Cristo aos Apóstolos pescadores de homens, que foi ordená-los de pregadores; e que fazem os Apóstolos? - Diz o texto que estavam reficientes retia sua: refazendo as redes suas; eram as redes dos Apóstolos, e não eram alheias. Notai: retia sua: não diz que eram suas porque as compraram, senão que eram suas porque as faziam; não eram suas porque lhes custaram dinheiro, senão porque lhes custavam o seu trabalho. Desta maneira eram as redes suas; e porque desta maneira eram suas, por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens. Com redes alheias ou feitas por mão alheia, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. Como se faz uma rede? - Do fio e do nó se compõe a malha; quem não enfia nem ata, como há-de fazer a rede? E quem não sabe enfiar nem sabe atar, como há-de pescar homens? A rede tem chumbada que vai ao fundo, e tem cortiça que nada em cima da água. A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo, e tem outras superficiais e mais leves; e governar o leve e o pesado, só o sabe fazer quem faz a rede. Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça. As razões não hão-de ser enxertadas, hão-de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.
Veio o Espírito Santo sobre os Apóstolos, e quando as línguas desciam do Céu, cuidava eu que se lhe haviam de pôr na boca; mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois porque na cabeça e não na boca, que é o lugar da língua? - Porque o que há-de dizer o pregador, não lhe sai só da boca; há-de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca, pára nos ouvidos; o que nasce do juízo, penetra e convence o entendimento.

Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, cap. VII




I

1. Neste texto, estabelece-se uma relação entre o que é próprio e o que é alheio.
1.1. Numa frase bem construída, esclarece a finalidade desta oposição.

2. Há ainda a relação entre redes e palavras.
2.1. Explica essa relação.

3. Indica o sentido de "pescar homens".

4. "Pregar não é recitar."
4.1. Explica o sentido desta afirmação.
4.2. Esta afirmação contém uma crítica. Indica o seu objectivo.
4.3. Da mesma maneira pode dizer-se que "estudar não é recitar". A esta luz, como deve ser o estudo?

5. Há muitas interrogações. Refere a sua função.

6. Parece claro que o Sermão da Sexagésima tem objectivos que valem para o nível religioso e para o nível profano. Neste último caso, pode ser útil para quem quer aprender a escrever e a estudar.
6.1. Põe em destaque os benefícios dos excertos que leste para o desenvolvimento da competência da escrita.


II

Lê o seguinte excerto do capítulo VI do Sermão da Sexagésima:

«Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter: palavras. Sim, tem, diz o mesmo David; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? -- As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há-de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja


Tendo por base este excerto, mostra de que forma Pe. António Vieira se posiciona em relação ao Barroco.