31.5.09

Prólogo da Crónica de D. João I


Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom cárrego d'ordenar estorias, moormente dos senhores em cuja mercee e terra viviam e u forom nados seus antigos avoos, seendo-lhe muito favorávees no recontamento de seus feitos; e tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom é salvo conformidade dalgüa cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homeés per longo costume e tempo forom criados geera üa tal eonformidade antre o seu entendimento e ela que, avendo de julgar algüa sua cousa, assim em louvor como per contrairo, nunca per eles é dereitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom.

Outra cousa geera ainda esta conformidade e natural inclinaçom, segundo sentença dalguüs, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritos geerados de taes virandas tem üa tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alguüs outros teveron que esto decia na semente, no tempo da geeraçom; a qual despõe per tal guisa aquelo que dela é geerado, que lhe fica esta conformidade tam bem acerca da terra como de seus dívidos.
E assi parece que o sentio Túlio, quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós meesmos, porque üa parte de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o juizo do homem, acena de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega.
Esta mundanal afeiçom fez a alguüs estoriadores que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que homeës de boa autoridade fossem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos, por as mínguas das terras de que eram em certos passos claramente nom seerem vistas; e espicialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria Dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, ouve com o nobre e poderoso Rei Dom Joam de Castela, poendo parte de seus boõs feitos fora do louvor que mereciam, e ëadendo em alguãs outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo-se a pubricar esto em vida de taes que lhe forom companheiros, bem sabedores de todo o contrairo.
Nós certamente levando outro modo, posta a de parte toda a afeiçom que por aazo das ditas razões aver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mestura, leixando nos boõs aqueecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao poboo quaesquer contrairas cousas, da guisa que aveerom.
E se o Senhor Deos a nós outorgasse o que a alguüs escrevendo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem duvida nom soomente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom queriamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso. E nós, engando per ignorancia de velhas escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa voontade. Ó! com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguageës e terras! e isso meesmo púbricas escrituras de muitos cartários e outros logares, nas quaes, depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom aver non podemos da conteúda em esta obra. E seendo achado em alguüs livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas.
Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das estorias, desprazer-lhe-á de nosso razoado, muito ligeiro a eles d'ouvir e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé; doutra guisa, ante nos calariamos que escrever cousas falsas.
Que logar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto despes nom basta pera ordenar a nua verdade? Porém, apegando-nos a ela firme, os claros feitos, dignos de grande renembrança, do mui famoso Rei Dom Joan, seendo Meestre, de que guisa matou o conde Joam Fernández, e como o poboo de Lisboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor, e depois outros alguüs do reino, e d'i em deante como reinou e em que tempo, breve e sãamente contados, poemos em praça na seguinte ordem.

Crónica de D. João I, Primeira Parte, Prólogo



I

1. Identifique os erros apontados por Fernão Lopes aos anteriores historiadores.

2. Explicite as causas que provocaram tais erros.

3. Defina o conceito de história para Fernão Lopes, justificando com expressões do texto.

4. Identifique o método que o cronista pretende seguir para chegar à verdade.

5. Embora Fernão Lopes afirme recusar a «fremosura e novidade de palavras», mostre como o discurso literário está presente neste excerto.


II

1. Com as formas verbais havereis aprendido e houverdes aprendido construa duas frases, completas de sentido, contendo estas formas verbais. Identifique por palavras suas os valores semânticos expressos.

2. As frases seguintes são agramaticais (contêm, no seu conjunto, três erros de sintaxe). Dê as versões das frases corrigidas:
a - Os soldados carregaram nas armas e faziam pontaria. Só o soldado João achou indelicado não ir cumprimentar os colegas na outra banda.
b - O mar beija a terra e traz-lhe o seu encanto. Acaricia as suas ondas o corpo daquela sereia.

Num discurso de carácter díssertativo, pronuncie-se sobre a seguinte afirmação:
Fernão Lopes oferece-nos uma extraordinária visão da sociedade, mas elege o povo como o grande herói da guerra da independência; Gomes Eanes de Zurara, que continua a sua obra de cronista, interessa-se pelos feitos guerreiros e militares dos grandes cavaleiros.