16.5.09

Praia das Lágrimas e o Velho do Restelo

CAPÍTULO IV - «A mais linda história do mundo»
EPISÓDIO: Praia das Lágrimas e o Velho do Restelo


«Eis no porto de Lisboa, onde o Tejo mistura as suas águas com a água salgada do Mar, as naus prontas a sair.
Ninguém receia a viagem aventurosa. Ninguém vacila em seguir-me a toda a parte.
Na praia, guerreiros e marujos passeiam os seus fatos novos.
Os ventos sossegados fazem ondular os estandartes nas fortes e belas naus que prometem tornar-se um dia, — como a lendária Argos onde os Gregos, em tempos remotos, foram conquistar o Velo de Oiro — estrelas brilhantes no céu da glória...
Estão as naus aparelhadas e nós aparelha¬dos para todas as traições e lutas do Mar, a que os navegadores estão sujeitos.
À Deus pedimos, antes de partir, a protecção e ajuda, favor celeste que nos guiasse.
E enfim, da Capela de Santa Maria de Belém saímos para bordo.
A gente da cidade veio-nos acompanhar, em grande multidão, chorando e gritando. Soluçavam as mulheres. Suspiravam os homens que ficavam. Todos receavam a nossa perda nos desconhecidos oceanos que íamos navegar...
Mães, esposas, irmãs, imaginavam já não nos tornar a ver. Uma, chama pelo filho. Outra, pelo esposo. Velhos e meninos banhavam a branca areia com suas lágrimas.
Tão grandes saudades sentiam todos — os que ficavam e os que partiam, — que eu decidi que embarcássemos sem despedidas, sem adeus.
E assim fizemos, para não tornar triste, logo de começo, tão audaciosa e gloriosa jornada...
Nenhum de nós então se despediu, ninguém sequer falou, para que não se adivinhasse a nossa comoção e a nossa mágoa.
Mas um velho, muito velho, que na praia chamada do Restelo ficara sozinho, homem de aspecto grave e venerando, seguindo-nos com os olhos, pensativo, meneou três vezes a cabeça.
E levantando a voz, tão alto que a ouvimos já embarcado, bradou, increpando-nos veementemente:
— «Que pretendem aqueles, exclamava o velho apontando para nós, senão correr atrás de vaidades e vitórias impossíveis?
Que desastres sofrerá Portugal por causa dessa loucura que é abandonar a terra dos nossos avós, e as nossas conquistas da África, onde tantas vitórias poderíamos alcançar ainda, indo tão longe e tão desvairadamente buscar a Fama e a Riqueza?
Temos o inimigo à porta, — gritava o ancião, — e tenta-nos desperdiçar assim a força de que precisamos tanto?
Maldito, acrescentou, maldito aquele que primeiro pôs uma vela num barco e deu aos homens o anseio de navegar! Melhor fora não ter desejos tão subidos, nem imitar os ambiciosos, que não sabem contentar-se com a sorte que Deus lhes deu».
Assim vociferava o ancião venerável, condenando a viagem que vínhamos tentar, saudosos da terra onde o nosso esforço e o nosso trabalho ainda eram certamente precisos...
Mas esquecia o velho do Restelo que somos um povo de marinheiros. E não queria também lembrar-se de que o bom nome e a honra de Portugal exigia que levássemos ao fim a empresa começada... Continuou a gritar na praia, mas não mais o ouvíamos.
As naus navegavam já, abrindo as asas ao vento sereno. E — como é costume entre as pessoas que se arrojam às incertas águas do Mar — uns aos outros, dentro dos barcos, dizíamos, saudando-nos mutuamente: «Boa-Viagem!»

In Os Lusíadas de Luís de Camões contados às Crianças e Lembrados ao Povo



I

1.Qual era o estado de espírito dos homens e mulheres, no momento da partida dos marinheiros portugueses?
1.1.Transcreve expressões que justifiquem esse sentimento de perda, tristeza e saudade.
1.2. Qual era o receio do povo português, relativamente à viagem?

2.Identifica a personagem que aparece no momento da partida da armada.
2.1. Faz a sua caracterização física e psicológica.
2.2. Qual é a mensagem que esse velho pretende transmitir?
2.3. Indica a pontuação predominantemente utilizada no discurso do velho e explica a sua utilidade.
2.4. Na tua opinião, o que representa o Velho do Restelo na obra?

3. Classifica o narrador quanto à sua presença, ciência e posição. Justifica com expressões do texto.

4. A partida dos portugueses de Lisboa rumo à Índia é contada, numa fase posterior, ao rei de Melinde por Vasco da Gama.
4.1. Refere o processo aqui utilizado pelo narrador.

5. Identifica o plano presente neste capítulo.

6. Refere os tipos de episódios que conheces nesta obra e diz em que consistem.



II
Funcionamento da Língua

«Assim vociferava o ancião venerável, condenando a viagem que vínhamos tentar, saudosos da terra onde o nosso esforço e o nosso trabalho ainda eram certamente precisos...»

1. Classifica morfologicamente as palavras sublinhadas.
2. Identifica os verbos presentes e respectivos tempos verbais.


III
Expressão Escrita

Relembra o capítulo: “A mais linda História do Mundo”.
Utilizando o maior número de adjectivos que conseguires, descreve o amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro.