19.5.09

O sugerido sobre os rendimentos


Lisboa, 29/1/2002*
Caro Dr. Durão Barroso

Tem afirmado V. Ex.a que, caso seja eleito primeiro-ministro, baixará os impostos (não estranhe V. Ex.a este tratamento cerimonioso, em vez do nosso habitual tutoyer1, uma vez que apenas reservo o tratamento por tu a primeiros-ministros e não a meros candidatos). V. Ex.a disse portanto que baixava os impostos e isso tornar-se-ia, doravante, uma possibilidade real, já que V. Ex.a tem verdadeiras hipóteses de chegar a líder de um Governo, ao contrário das cassândricas previsões de certos analistas e comentadores. Não levará, porém, a mal V. Ex.a se eu, do alto dos meus inúmeros estudos sobre economia, derivados e ofícios correlativos, lhe diga (não olhos nos olhos, mas carta na cara) que essa é uma promessa impossível de ser cumprida em Portugal.
Na verdade, V. Ex.a poderia baixar os impostos na Suécia ou no Reino Unido, na Dinamarca ou na Alemanha, quiçá na França ou na Espanha. Todavia, tal desiderato torna-se inexequível adentro de nossas velhas fronteiras. Porquê? – Eis a pergunta que lhe adivinho soltar-se dos lábios, depois de percorrer, com a rapidez possível, as circunvoluções do seu respeitável cérebro. Por razões económicas? Não, meu caro Dr. Durão Barroso, não por motivos de Economia, essa ciência obscura que provém directamente dos ritos ancestrais de ler o futuro no fígado das aves, nas entranhas do peixe ou nos números do Instituto Nacional de Estatística. A razão da impossibilidade de baixar os impostos é meramente prática. Se tiver paciência para mais 20 linhas, passo a explicar.
A verdade, meu caro e preclaro amigo, é que em Portugal não há o que se chame de impostos!
A palavra imposto, como não desconhece, refere-se a algo obrigatório, ao qual não se pode fugir. Não é facultativo, nem depende do estado de espírito ou dos humores de cada um. Nada disso! O que nos é imposto não fica ao nosso livre arbítrio, é fatal, inelutável. É como respirar, como tossir
num concerto, como morrer.
Acontece que a tributação recolhida pelo Estado português não tem as características de um Imposto. Tem, digamos, a de um Sugerido. Na verdade, o que o Estado faz, a avaliar pelas receitas do IRS (que em boa verdade, tal como os airbag, se devia chamar SRS2, é sugerir aos portugueses que paguem qualquer coisita, se puderem – é evidente – ou não tiverem outra hipótese. É como uma esmola, uma gorjeta ou o preço da revista Cais – cada um dá o que pode, ou o que lhe apetece, e a mais não é obrigado. Por exemplo, um ex-presidente do Benfica dava cerca de 50 contos e um grande
empresário da construção civil outro tanto. Inúmeros advogados dão 100 ou 200 contitos; caixeiros-viajantes e profissionais dos ramos de vendas também contribuem um bocadito. E pronto, lá vamos andando.
Vem V. Ex.a como um pobre sem ambições (em vez de 100 escudinhos pedir só 50) baixar a tabela. O máximo de 40 por cento desceria, com a sua subida a primeiro-ministro, para 35 por cento. Não vê V. Ex.a que escusa de se dar ao incómodo de fazer uma lei? O português não precisa que lhe digam para pagar menos! Está habituado a pagar o mínimo possível. Até porque não lhe é imposto... é-lhe apenas vaga e timidamente sugerido.
Receba um abraço do seu

Marques de Correia (comendador@ mail.expresso.pt)

in Expresso, revista Actual, 2 de Fevereiro de 2002


Notas:
Este texto foi escrito antes das eleições legislativas de 2002, quando Durão Barroso era ainda candidato a Primeiro-Ministro.
1. tutoyer – (fr.) tratar por tu.
2. SRS – sigla ligada ao ramo automóvel, do inglês Supplemental Restraint System (sistema complementar do airbag);
jogo com IRS/SRS (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares/Sugerido sobre o Rendimento das Pessoas Singulares).




I

1. Neste texto, sobretudo nos quatro primeiros parágrafos, encontramos um vocabulário que denota o uso de um registo de língua cuidado.
1.1. Justifica o seu uso neste contexto.
1.2. Faz corresponder os termos que se seguem aos seus equivalentes num registo de língua familiar:
A. meros
B. doravante
C. correlativos
D. quiçá
E. desiderato
F. inexequível
G. ancestrais
H. preclaro
I. (livre) arbítrio
J. inelutável

a. relacionados
b. impossível de executar
c. liberdade de decisão
d. simples
e. daqui em diante
f. inevitável
g. talvez
h. desejo
i. antigos
j. famoso

2. Embora tratando-se de uma carta, este texto não deixa de ser argumentativo.
2.1. Salienta:
• a tese do autor;
• os argumentos;
• os exemplos.
3. Também no que se refere à expressão, o autor não ignora os recursos próprios deste tipo de
texto.
3.1. Procura exemplos ao nível:
• da pontuação;
• da construção frásica;
• da articulação do discurso;
• dos recursos estilísticos.


II

1. “Tem afirmado V. Ex.a que, caso seja eleito primeiro-ministro, baixará os impostos (…)”
1.1. Divide e classifica as orações desta frase complexa.
1.2. Reescreve a oração “caso seja eleito primeiro-ministro”, substituindo a conjunção subordinativa.
que a introduz por outra de sentido equivalente neste contexto (terás de alterar a forma verbal).
1.3. Que função sintáctica desempenha a oração introduzida pela conjunção que?


III

1. Os exames nacionais e a educação sexual nas escolas têm sido, nos últimos tempos, temas recorrentes de reivindicações dos estudantes do ensino secundário.
Redige uma carta ao Ministro da Educação, defendendo a tua opinião acerca de uma das duas questões, à tua escolha.
Não te esqueças que, mesmo em forma de carta, o que vais redigir é um texto argumentativo, onde terás que começar por expor a tua tese seguida da apresentação dos teus argumentos, que deverão ser claros e fundamentados de forma a convenceres o Ministro da justeza das tuas opiniões.