27.4.09

Transforma-se o amador na cousa amada


File:Paris Bordone 005.jpg


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

Luís de Camões


Nota:
A ideia da transformação do amador na cousa amada, de origem platónica, é posta em circulação por Petrarca, e por isso já tem eco no nosso Cancioneiro Geral, de Resende.



I

1. Este soneto organiza-se em torno de dois tipos de amor.
1.1. Identifique-os.
1.2. Ponha em evidência as filosofias que lhes servem de suporte.

2. Nesta mensagem poética, o Belo e o Bem supremos residem na alma. E a alma com que se identifica?

3. Transcreve os versos onde se alude ao amor carnal.

4. O verbo “desejar” tem um emprego ambíguo. Demonstre-o adentro do confronto alma /corpo.

5. A partir do 1º terceto, o poeta começa a antítese, isto é, a contra argumentação. Que vocábulo nos revela que se vai contrapor algo de diferente?