26.4.09

A Torre da Má Hora



Era uma vez uma mulher, que tinha três filhos.
O mais velho um dia pediu a bênção à mãe e disse-lhe se ela lhe dava um cavalo e um leão, que ele ia correr mundo. A mãe disse-lhe:
— Filho, assim só, onde é que tu vais?
— Deixe, minha mãe, disse ele, eu vou correr mundo!
A mãe deu-lhe o cavalo e o leão, e ele partiu. Foi andando, andando, até que encontrou uma velhinha a lavar. Chegou-se o rapaz ao pé dela e perguntou-lhe:
— Ó velhinha, que estás tu aí a fazer?
A velha respondeu:
— Oh! meu filho, estou aqui a lavar, e toda a minha vida lavarei!
O rapaz tornou a perguntar:
— Sabeis dizer-me que torre é aquela além?
A velha disse:
— Ai! menino, aquela é a torre da má hora; quem lá vai não torna!
O rapaz respondeu:
— Pois eu hei-de ir, e hei-de voltar, e ainda aqui te hei-de achar!
Foi andando, andando, até que por fim chegou à tal torre.
Era uma estalagem. Apenas o rapaz chegou à porta, veio uma velha e ele perguntou se ali era uma estalagem, que ele queria hospedar-se. A velha respondeu-lhe que sim.
— Olhe, disse ela, tome lá esta chave e vá abrir a cavalariça. Tome este cabelinho e enrole-o à roda do pescoço do seu cavalo e do seu leão, para os prender.
O rapaz assim fez. Abriu a cavalariça, meteu lá o leão e o cavalo, depois enrolou o cabelo à roda do pescoço de ambos e veio-se embora.
Chegou depois à velha e pediu-lhe de comer.
A velha respondeu-lhe:
— Há comer, sim, senhor, meu menino, mas primeiro vamos deitar-nos a uma luta.
O rapaz não teve mais remédio, e foi lutar com a velha; mas viu-se tão aflito, pois a velha era uma bruxa, que começou a chamar pelo cavalo e pelo leão:
— Acudi-me, meu cavalo e meu leão!
A velha respondeu:
— Engrossa-te cabelinho, cabelão, à roda do teu cavalo e do teu leão!
Imediatamente o cabelo se fez numa grossa corrente, que os prendeu, e não puderam vir acudir ao rapaz.
A velha continuou a lutar, até que por fim o rapaz morreu.
E quando o viu morto, ela foi enterrá-lo numa cova onde já estavam muitas pessoas mortas também.
Daí a tempos o segundo irmão, quando viu que o mais velho não voltava, disse à mãe que lhe deitasse a bênção e que lhe desse um cavalo e um leão, porque ele queria também ir correr mundo à procura do seu irmão.
A mãe disse:
— Oh! meu filho, para ficares lá, como o outro teu irmão, que nunca apareceu!
Ele respondeu:
— Não tem duvida, minha mãe.
Como ele teimasse, a mãe deu-lhe o cavalo, o leão e um taleigo de dinheiro.
O rapaz foi-se embora, andou, andou, chegando afinal ao mesmo sítio onde estava a velha a lavar. O rapaz perguntou-lhe:
— Ó, velhinha, que estás tu aí a fazer? A velha respondeu:
— Oh! meu filho, estou aqui a lavar, e toda a vida lavarei!
O rapaz tornou a perguntar:
— Sabeis dizer-me que torre é aquela além?
A velha disse:
— Ai, menino, aquela é a torre da má hora; quem lá vai não torna!
O rapaz respondeu:
— Pois eu hei-de ir e hei-de voltar, e ainda aqui te hei-de achar!
— Ora, disse a velha, já aqui passou um menino que disse o mesmo, e ele não voltou.
O rapaz respondeu:
— Pois esse era meu irmão, e eu hei-de lá ir e hei-de o trazer!
Foi-se dirigindo para a torre, veio a velha, e ele perguntou-lhe se ali era alguma estalagem, que ele queria hospedar-se. A velha respondeu-lhe que sim.
— Olhe, disse ela, tome lá esta chave e vá abrir a cavalariça. Tome também este cabelinho e enrole-o à roda do pescoço do seu cavalo e do seu leão para os prender.
O rapaz assim fez. Abriu a cavalariça também, meteu lá o leão e o cavalo e prendeu-os com o cabelo que lhe tinha dado a velha. Depois veio-se embora e foi à velha pedir de comer. Ela respondeu-lhe:
— Há comer, sim, senhor, meu menino, mas primeiro vamos deitar-nos a uma luta.
O rapaz chamou:
— Acudi-me, meu cavalo e meu leão!
A velha respondeu logo:
— Engrossa-te, cabelinho, cabelão, à roda do teu cavalo é do teu leão!
Imediatamente o cabelo se fez numa grossa corrente, que os prendeu, e eles não puderam vir acudir ao rapaz. A velha matou-o e, quando o viu morto, foi enterrá-lo na cova onde estava o outro irmão.
Daí a tempos o irmão mais novo, como via que os outros não voltavam, pediu à mãe a bênção, um cavalo e um leão, e foi correr mundo à procura deles.
Chegou ao sítio onde a velha estava a lavar e perguntou-lhe:
— ó velhinha, que estás aí a fazer?
A velha respondeu:
— Oh! meu filho, estou aqui a lavar, e toda a vida lavarei, porque uma vez estava eu a lavar ao domingo, e passou um pobrezinho e perguntou-me se eu estava a lavar ao domingo. Eu respondi-lhe que sim, porque ao domingo também se comia, e ele disse-me que então lavaria toda a minha vida.
O rapaz tornou a perguntar:
— Sabeis dizer-me que torre é aquela além?
A velha respondeu:
— Ai! menino, aquela é a torre da má hora; quem lá vai não torna!
O rapaz disse:
— Pois eu hei-de ir, hei-de voltar e ainda aqui te hei-de achar!
— Ora, disse a velha, já aqui passaram dois meninos que disseram o mesmo, e não voltaram! O rapaz respondeu:
— Pois esses eram meus irmãos, e eu hei-de lá ir e hei-de os trazer!
Dirigiu-se para a torre, e quando chegou estava a velha à porta. O rapaz perguntou-lhe se ali era alguma estalagem, que ele queria hospedar-se. A velha respondeu-lhe que sim, e disse-lhe:
— Olhe, tome lá esta chave e vá abrir a cavalariça. Tome também este cabelinho e enrole-o à roda do pescoço do seu cavalo e do seu leão.
O rapaz pôs o cavalo e o leão na cavalariça, mas em lugar de os prender, cortou com uma tesourinha, que levava, o cabelo da velha aos bocadinhos. Depois veio-se embora e pediu de almoçar.
A velha respondeu-lhe:
— Há-de de almoçar, sim, senhor, meu menino, mas primeiro vamos deitar-nos a uma luta! O rapaz chamou logo:
— Acudi-me, meu cavalo e meu leão!
A velha disse:
— Cabelinho, cabelão, engrossa-te à roda do teu cavalo e do teu leão!
Mas o rapaz tinha cortado o cabelo aos bocadinhos e tinha-os atirado para o mar.
O leão e o cavalo acudiram logo.
O rapaz disse então para a velha:
— Hás-de apresentar-me aqui os meus irmãos, senão morres!
A velha respondeu:
— Ai! meu senhor, eu não sei dos seus irmãos»!
O rapaz disse que a ia matar, e a velha não teve outro remédio senão confessar onde eles estavam.
Depois deu um óleo, para os untar, e um cheiro, para eles cheirarem.
O rapaz foi untar os irmãos e, quando lhes deu o cheiro a cheirar, eles voltaram logo a si.
Depois, mal se viram os três, foram-se à velha, abriram uma cova e enterraram-na viva.