4.4.09

O dia em que eu nasci, moura e pereça


O dia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões



I

1. «O dia em que eu nasci, moura e pereça».
1.1. Que estado de espírito subjaz ao verso acima transcrito?
1.2. Explique o sentido da repetição «moura e pereça».

2. Releia as duas quadras.
2.1. Saliente:
- as enumerações;
- as repetições de sentido;
- a função apelativa;
- a hiperbolização do anormal.
2.2. Que efeito produzem esses recursos?

3. O espectáculo criado pelo eu precisa de espectadores.
3.1. Quem invoca o eu para esse fim?
3.2. Confronte a atitude do destinatário-espectador com a do eu, face ao mundo por este apresentado.

4. Estabeleça uma relação entre os últimos dois versos e o primeiro.
Não existirá, sob toda a revolta expressa pelo eu poético, também um grande orgulho de si?