2.4.09

A Educação

D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua ideia:
– Sem contar que o pequeno está muito atrasado. A não ser um bocado de inglês, não sabe nada... não tem prenda nenhuma!
– Mas é muito esperto, minha rica senhora! – acudiu o Vilaça.
– É possível. – respondeu secamente a inteligente Silveira.
E, voltando-se para Eusebiozinho, que se conservava ao lado dela, quieto como se fosse de gesso:
– Ó filho, diz tu aqui ao sr. Vilaça aqueles lindos versos que tu sabes...Não sejas atado, anda!... Vá, Eusébio, filho, sê bonito...
Mas o menino, molengão e tristonho, não se descolava das saias da titi: teve ela de o pôr de pé, ampará-lo, para que o tenro prodígio não aluísse sobre as perninhas flácidas; e a mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela...
Isto decidiu-o: abriu a boca, e como de uma torneira lassa veio de lá escorrendo, num fio de voz, um recitativo lento e babujado:

É noite, o astro saudoso
Rompe a custo um plúmbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu...

Disse-a toda – sem se mexer, com as mãozinhas pendentes, os olhos mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do crochet; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, banhada no langor da melopeia, ia cerrando as pálpebras.
– Muito bem, muito bem! – exclamou o Vilaça, impressionado, quando o Euzebiozinho findou coberto de suor. – Que memória! Que memória!... É um prodígio!... (...)
Enquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Afonso, numa mesa baixa, os cristais e as garrafas de soda, Vilaça, com as mãos nos bolsos, de pé e pensativo, olhava a brasa da acha que morria na cinza branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:
– Aquele rapazito é esperto...
– Quem? O Eusebiozinho? – disse Afonso, que se acomodava junto ao fogão, enchendo alegremente o cachimbo. – Eu tremo de o ver cá, Vilaça! O Carlos não gosta dele, e tivemos aí um desgosto horroroso...Foi já há meses. Havia uma procissão e o Eusebiozinho ia de anjo... (...) Em primeiro lugar ia-o matando porque embirra com anjos... Mas o pior não foi isso. Imagine você o mesmo terror, quando nos aparece o Eusebiozinho aos berros pela titi, todo desfrisado, sem uma asa, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um barbante, a coroa de rosas enterrada até ao pescoço e os galões de ouro, os tules, as lantejoulas, toda a vestimenta celeste em frangalhos!... Enfim, um anjo depenado e sovado... Eu ia dando cabo do Carlos.
Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, acrescentou, com uma satisfação profunda:
– É levado do diabo, Vilaça!


Eça de Queirós, Os Maias, cap. III



I

1. Situe o extracto que acabou de ler no contexto da obra Os Maias.

1.1. Com base no texto, estabeleça um contraste entre o procedimento de cada uma delas.

1.2. A razão desse contraste estará apenas no temperamento das crianças? Justifique a sua resposta.

2. As ideias de D. Ana e de Afonso da Maia são coincidentes no que toca ao problema da educação? Procure demonstrá-lo com base no texto.

3. Assinale os aspectos estilísticos mais marcantes do texto, relacionados com o fim satírico que o autor tinha em vista.

4. Explique o significado das expressões o tenro prodígio, torneira lassa e olhos mortiços.

5. Atente na seguinte frase: A mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ela.

5.1. Divida e classifique as orações da frase.

5.2. Classifique morfologicamente as palavras prometeu-lhe, essa e com.

5.3. Explique a formação da palavra versinhos.


III

Tendo em conta as atitudes de determinadas personagens de Os Maias, elabore um breve comentário acerca das suas causas e as formas encontradas pelos intelectuais da Geração de 70 para as remediar.