27.4.09

Alento de ser vivo

Nisto, resolvi marinhar até ao cimo do zimbório, pela escadinha exterior, que é de dar vertigens. O cicerone opôs-se, declarou que não assumia a responsabilidade. Os outros visitantes ofereceram-me conselhos sensatos, que era um perigo, um pé em falso e zás... Subi assim mesmo, quase de gatas. Era preciso ter unhas. E já não era a primeira vez.
Cheguei quase ao alto, sentei-me num degrau e fiquei só. Ficar só, aqui, não é ficar desacompanhado; é ficar recolhido, mergulhando raízes em alguma coisa mais do que o panorama que realmente me rodeava: absorvido a olhar um quadro com uma segunda vista que me dava sobre os outros, que a não tinham, uma vantagem inestimável. Ali sentado, lembrei quantas vezes, por esse mundo, ouvindo assobiar o vento nas janelas dum triste arranha-céus de Chicago ou nos cordames dum navio solitário, eu me sentira subitamente transportado em nostalgia, muitos anos e muitas léguas atrás, ao alto desta serra e deste zimbório. Fechava então os olhos, e o mundo em torno
cessava de existir - ficava só aquele doce, grave e manso zumbir do vento musical, e eu revia-me, de cabeça descoberta, banhado de sol e frescura, no alto da cúpula, a ouvir suspirar esta brisa do Atlântico, cheia de longes, de índias, de ilusões, de apelos, quimeras, sereias e mundos. (...)
Fechei os olhos. O vento passou, com o seu zumbido manso e grave, e acariciou-me a cara com mãos frescas de invisível amor. Respirei fundo, respirei no ar todos os anos perdidos que voltavam, mas com forte e profunda tranquilidade. A brisa, agora, já me não trazia o misterioso apelo de outrora-além. Os mundos (devo eu lamentá-lo?) haviam perdido para mini o atractivo das coisas ignoradas! (...)
A curva imensa do oceano exalava-me um alento de ser vivo, de longe, tranquilo. Sobre quantos outros não teria ele exercido a sua mágica atracção, o seu canto ilusório, arrastando-os para longe, raça que somos de corações partidos pela Terra?

José Rodrigues Migueis, "Regresso À Cúpula da Pena",
in Léah e Outras Histórias


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Ficar recolhido significa:
a. ficar em casa
b. virar-se para o mundo interior
c. ficar desacompanhado

1.2. O narrador subiu ao zimbório para:
a. ficar isolado
b. admirar a paisagem
c. se reencontrar

2. Transcreve do primeiro parágrafo uma expressão que se assemelhe ao discurso directo.

3. Também no primeiro parágrafo encontramos a expressão "ter unhas". Existem muitas outras expressões idiomáticas ligadas a partes do corpo.
3.1. Faz corresponder a cada expressão indicada o sentido adequado.
ter cabeça
ter pernas
ter dedo para
ter estômago
ter olhos
ter mão em si
3.2. Recorda e escreve outras expressões idiomáticas que contenham a palavra "cabeça":

4. Atenta no segundo parágrafo. Explica a relação que se estabelece entre "Chicago", "navio" e "alto da serra".

5. "O vento passou, com o seu zumbido manso e grave, e acariciou-me a cara com mãos frescas..."
5.1. Indica o recurso expressivo utilizado em relação ao zumbido do vento.
5.2. Identifica e explica a figura de estilo que descreve as acções do vento.

6. Explica o sentido da expressão "... raça que somos de corações partidos pela Terra?".

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a frase:

O narrador, como qualquer português, sentia intensamente o apelo do oceano.