3.4.09

Ainda hoje por cá ando...


Até posso gabar-me de ter sido o único elevador da cidade a ter duas inaugurações, qual delas a mais representativa e badalada nos jornais!
O primeiro acontecimento de que fui alvo deu-se a l de Agosto de 1901. Estiveram presentes Suas Majestades, o rei e a rainha, membros da Empresa dos s Elevadores, o meu progenitor, claro, muitas individualidades e jornalistas. (...)
Foi festa rija, realmente, com banda de música a tocar, palmas a estalar e um beberete final, onde não faltaram os brindes, elogiando pessoas e instituições.
À noite, fui de novo muito falado durante um jantar de confraternização entre Mesnier e os seus operários e colaboradores. Sim, que sem eles, eu nunca teria sido a realidade que sou!
Finalmente, no dia 10 de Julho de 1902, urrah! Lá estava eu, todo majestoso, com duas belas cabinas de cuidada ornamentação, esperando os fregueses, à razão de 30 por compartimento.
Foi cá uma festa! Inesquecível. E alegria justificável, também! Enfeitaram-me todo, desde as torres até à passerelle; todo eu era arbustos, flores, bandeirinhas... E à minha volta, curiosa e ansiosa, gente, gente e mais gente... Ui que vaidoso me sentia!
(...)
E os dias começaram a correr iguais, rotineiros, com algumas peripécias pelo caminho. Realmente, ao longo de todo este tempo, muita coisa se tem passado dentro de mim! Nem sonham...
Namorados que se beijam e amam... Velhinhos tontos que se perdem... Pessoas que aqui se conhecem, por tantas vezes se cruzarem na minha porta... Amigos que se reencontram... Turistas deslumbrados com a beleza que aqui do alto se vislumbra... Horas de ponta com gente e mais gente que se acotovela e empurra... gente que teima em seguir dentro de mim naquela viagem e se esmaga e diz impropérios. E roubos, claro. Lisboa de Pina Manique já tinha assaltos! Hoje então, é um desespero. Chovem as histórias com polícias e ladrões...
Há um mês aconteceu um caso. Não o esqueci. Tudo por causa da droga. Maldito pó! Malvado negócio!
Ela entrou, rosto pálido, macilento, olheiras fundas nuns olhos castanhos, baços. Nervosa, oscilante, correu a esconder-se no meio das gentes, perto do meu banco do fundo. Enrolada sobre si mesma, tremia ligeiramente, mal encarando as pessoas.
Eu ia arrancar. Subia da rua do Ouro para o Carmo.

Maria Amélia Lemos Alves, Subindo e Descendo por Essa Lisboa


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. Quem arquitectou o elevador chamava-se:
a. Carmo
b. Pina Manique
c. Mesnier

1.2. O sentimento predominante da personagem é:
a. orgulho
b. revolta
c. nostalgia

2. Todo o texto tem por base uma personificação. Justifica esta afirmação.

3. Presta atenção ao oitavo parágrafo onde se apresenta a rotina da personagem.
3.1. Indica uma forma exagerada de expressão e classifica o recurso expressivo usado.
3.2. Qual é o sinal de pontuação utilizado para marcar a forte emotividade? Exemplifica.

4. Sintetiza o assunto do texto em cerca de quarenta palavras.

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a afirmação:
O elevador tinha orgulho da sua existência, pelo seu criador, pelas suas inaugurações e pelas histórias de um século.