26.3.09

Transforma-se o amador na cousa amada




Transforma-se o amador na cousa amada
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar.
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente2 em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia;
(e) o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria3 simples busca a forma.

Luís de Camões



Notas:
1. O amor é, assim, a ideia da amada vivida pelo amante;
2. Acidente: aquilo que pertence a um ser e pode ser afirmado dele em verdade: ser alto, branco, etc. As características ou qualidades do sujeito são, pois, acidentes;
3. Matéria e forma, categorias aristotélicas. A matéria é a existência virtual, que só se concretiza mediante as formas. Numa mesa de madeira, a madeira é a matéria; o modelo seguido pelo carpinteiro é a forma. A matéria precisa, pois, da forma para ser mesa. Matéria e forma não são duas realidades, mas uma só.



I

1. Este soneto organiza-se em relação a dois tipos de amor.
1.1.Identifique-os.
1.2. Transcreva os versos que, na primeira e na segunda qua¬dras, melhor os ilustram.
1.3. Ponha em evidência as teorias que servem de suporte a esses conceitos de amor.

2. Atente nas palavras «logo» e «pois», na primeira quadra.
2.1. Classifique-as morfologicamente.
2.2. Relacione o seu emprego com a tese aí defendida pelo eu poético.

3. Saliente a comparação presente no primeiro terceto.

4. Pode dizer-se que os últimos dois versos respondem à questão formulada na segunda quadra.
4.1. Integre, no plano do amor, os conceitos de matéria e forma.
4.1. Ponha em evidência a tentativa de síntese expressa pelos últimos dois versos.