4.3.09

Se eu pudesse desamar


Se eu pudesse desamar
a quen me sempre desamou,
e pudess' algun mal buscar
a quen mi sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu podesse coita dar,
a quen mi sempre coita deu.

Mais sol non posso eu enganar
meu coraçon que m' enganou,
per quanto mi faz desejar
a quen me nunca desejou.
E per esto non dormio eu,
porque non poss' eu coita dar,
a quen mi sempre coita deu.

Mais rog' a Deus que desampar
a quen mh' assi desamparou,
ou que podess' eu destorvar
a quen me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar,
a quen mi sempre coita deu.

Vel que ousass' en preguntar
a quen me nunca preguntou,
per que me fez en si cuidar,
pois ela nunca en min cuidou.
E por esto lazeiro eu,
porque non poss'eu coita dar,
a quen mi sempre coita deu.


Pêro da Ponte, CV 567, CBN 923



I

1. Contraponha a dicotomia desejo-realidade testemunhada pelo poeta.

2. Explicite o assunto da cantiga.

3. Por que razão é que o poeta sofre?

4. Relacione as variantes introduzidas no refrão com o desejo do poeta e a realidade que se interpõe.

5. Em que género da poesia trovadoresca incluiria esta cantiga? Justifique.

6. Explique até que ponto esta cantiga se afasta ou se aproxima da estética provençal.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Georges Duby:

«No comum dos ritos de corte, o amor vive da esperança dum triunfo final que levará a dama a entregar-se toda, uma vitória secreta e perigosa sobre a proibição maior e sobre os castigos prometidos aos uniões adúlteras.»