7.3.09

Carta de Guia de Casados

Uma das coisas que mais assegurar podem a futura felicidade de casados é a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda, causa contradição; a contradição, discórdia. E eis daqui os trabalhos por onde vêm. Perde-se a paz, e a vida é inferno.
Para satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue, para o proveito dos filhos, a da fazenda, para o gosto dos casados, a das idades. Não porém que seja preciso uma conformidade, de dia a dia, entre o marido e mulher; mas que não seja excessiva a vantagem de um a outro. Deve ser esta vantagem, quando a haja, sempre a parte do marido em tudo à mulher superior. E quando em tudo sejam iguais, essa é a suma felicidade do casamento.
Dizia um nosso cortesão, havia três castas de casamento no mundo: casamento de Deus, casamento do diabo, casamento de morte. De Deus, o do mancebo com a moça. Do diabo, o da velha com o mancebo. Da morte, o da moça com o velho.
Ele certo tinha razão porque os casados moços podem viver com alegria; as velhas casadas com moços vivem em perpétua discórdia; os velhos casados com moças apressam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas demasias.
Mas porque estas coisas são muito gerais, e ainda os incapazes têm delas conhecimento que aos entendidos lhes sobeja, é tempo de passar a alguns mais particulares avisos.
Senhor, saiba V. M.cê que à sua alma se acrescenta outra alma de novo: à sua obrigação se junta outra obrigação. Assim devem crescer seus cuidados, e seus respeitos. E da mesma sorte que, se a um homem que possuísse uma herdade, a qual cultivasse, lhe fosse deixada outra de novo, para o mesmo efeito esse tal homem, sem diminuir em sua alegria, era força que na diligência se avantajasse, por abranger com o seu trabalho a ambas aquelas suas fazendas; nem mais nem menos deve o casado multiplicar o tento e a fadiga (sem que por isso se entristeça), por não faltar ao novo cargo que tomou, e lhe entregaram, com a mulher que lhe deram; não para que a arriscasse, e perdesse (e a si mesmo com ela), mas para que maior cómodo e descanso pudesse passar com ela a vida.

D. Francisco Manuel de Melo, Carta de Guia de Casados, Capítulo III



I

1. Explane as ideias principais que o autor tem sobre o casamento.

2. Diga se concorda ou discorda das opiniões do autor, justificando a sua resposta.

3. Desenvolva a ideia contida na frase «Para satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue, para o proveito dos filhos, a da fazenda, para o gosto dos casados, a das idades».

4. A que obrigação se refere o autor no último parágrafo do texto? Justifique.

5. Identifique duas figuras de estilo e comente o seu valor expressivo.

6. Atente na seguinte frase: « Ele certo tinha razão porque os casados moços podem viver com alegria.»

6.1. Divida e classifique as orações da frase.

6.2. Diga que função sintáctica desempenha a expressão «os casados moços».

6.3. Explique a formação da palavra «casados».


II

No máximo de quinze linhas, relacione as ideias de D. Francisco Manuel de Melo sobre o casamento com certas atitudes dos casais na actualidade, servindo-se de um ou mais exemplos que conheça.