29.3.09

Carlos e Eusebiozinho

Os noivos tinham chegado de uma pitoresca e perigosa viagem, e Carlos parecia descontente de sua mulher; comportara-se de uma maneira atroz; quando ele ia governando a mala-posta, ela quisera empoleirar-se ao pé dele na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada.
– E ele atirou-me ao chão, titi!
– Não é verdade! Demais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos à estalagem... Ela quis-se deitar, e eu não quis... A gente, quando se apeia de viagem, a primeira coisa que faz é tratar do gado... E os cavalos vinham a escorrer...
A voz de D. Ana interrompeu, muito severa:
– Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavalaram bastante. Senta-te aí ao pé da senhora viscondessa, Teresa... Olha essa travessa do cabelo... Que despropósito!
Sempre detestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dez anos, a brincar assim com o Carlinhos. Aquele belo e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem propósito, aterrava-a: e pela sua imaginação de solteirona passavam sem cessar ideias, suspeitas de ultrajes, que ele poderia fazer à menina. Em casa, ao agasalhá-la antes de vir para Santa Olávia, recomendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os recantos escuros, que o não deixasse mexer-lhe nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas, apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados, porque não haviam de fazer nené, ou ter uma loja e ganharem a sua vida aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras lançadas a galope, viagens a terras de nomes bárbaros que o Brown lhe ensinava. Ela, despeitada, vendo o seu coração mal compreendido, chamava-lhe arrieiro; ele ameaçava boxá-la à inglesa: – e separavam-se sempre arrenegados.
Mas quando ela se acomodou ao lado da viscondessa, gravezinha e com as mãos no regaço – Carlos veio logo estirar-se ao pé dela, meio deitado para as costas do canapé, bamboleando as pernas.
– Vamos, filho, tem maneiras – rosnou-lhe muito seca D. Ana.
– Estou cansado, governei quatro cavalos – replicou ele, insolente e sem a olhar.
De repente, porém, de um salto, precipitou-se sobre o Eusebiozinho. Queria-o levar à África, a combater os selvagens: e puxava-o já pelo seu belo plaid de cavaleiro da Escócia quando a mamã acudiu aterrada:
– Não, com o Eusebiozinho não, filho! Não tem saúde para essas cavaladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!
Mas o Eusebiozinho, a um repelão mais forte, rolara no chão, soltando gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe trémula, agachada junto dele, punha-o de pé, sobre as perninhas moles, limpando-lhe as grossas lágrimas, já com o lenço, já com beijos, quase a chorar também. O delegado, consternado, apanhara o boné escocês, e cofiava melancolicamente a bela pena de galo. E a viscondessa apertava às mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a sufocassem.
O Eusebiozinho foi então preciosamente colocado ao lado da titi; e a severa senhora, com um fulgor de cólera na face magra, apertando o leque fechado como uma arma, preparava-se a repelir o Carlinhos, que, de mãos atrás das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o Eusebiozinho um lábio feroz. Mas nesse momento davam nove horas, e a desempenada figura do Brown apareceu à porta.
Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detrás da viscondessa, gritando:
– Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!
Então Afonso da Maia, que se não movera aos uivos lancinantes do Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
– Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. III



I

1. Integre este excerto na estrutura global da obra a que pertence.

2. Ponha em evidência o contraste que existe entre Carlos e Eusebiozinho.

3. Comente a reacção da mãe à queda de Eusebiozinho.

4. Afonso «não se movera aos uivos lancinantes do Silveirinha» que Carlos deitara ao chão. Acha essa atitude correcta? Justifique.

5. Comente, a partir de exemplos representativos, a expressividade da linguagem do texto tendo em vista a corrente literária em que se insere e as características de estilo do autor.


II

Comente a seguinte afirmação: «A partir da acção fulcral – amores de Carlos e Maria Eduarda – Eça de Queirós pretendeu, em Os Maias, retratar a sociedade portuguesa dos fins do século XIX.»