2.2.09

Sentir-se adulto


- Não se preocupe, mãe, que eu não ando cansado nem mal alimentado. As pessoas a quem faço recados tratam-me bem e dão-me de comer. Se ando com má cor é por estar a crescer. São coisas da idade.
Não lhe estava a dizer a verdade. Mais do que problemas da idade e do crescimento, eu o que estava a sentir era um grande desassossego com o que se estava a passar à minha volta. Havia descontentamento, gente a falar a meia voz contra os ingleses que mandavam em Portugal e contra os portugueses que lhes davam apoio, e eu não queria ficar de fora. Mais depressa do que podia esperar, eu estava a tornar-me uma pessoa crescida, apesar de não passar de um rapazola magro e sem barba, que ainda gostava de jogar à apanha¬da e de brincar ao arco. Com os meus companheiros de brincadeiras comecei a tornar-me sisudo, impaciente, um pouco rude. Achava-os muito miúdos para mim. Eles percebiam isso e comentavam:
- Desde que faz recados a generais que anda a dar-se ares de capitão, mas não passa de uma galinha-da-índia.
Eu nem sequer me dava ao trabalho de lhes responder. O meu mundo era já outro, o das coisas e dos problemas das pessoas crescidas. Gostava de me sentir adulto, embora usasse calções e tivesse ainda a voz a escapar para o fal¬sete, o que bastante me irritava. Naqueles dias de Abril de 1817, eu não passava de um homenzinho que ainda não deixara o tempo da infância. Em épocas como aquela, as pessoas tornam-se crescidas sem se darem conta disso. Têm mais responsabilidades, mais deveres, mais problemas. E, um dia, quando acordam, têm mais uns bons anos em cima. Às vezes, nas ruas, eu ouvia falar de pessoas com nomes estrangeiros e não sabia quem eram, mas tinha vergonha de o dizer. Beresford, eu já sabia que era o nome do marechal inglês que, na ausência do Rei, tinha os maiores poderes em Portugal, principalmente os poderes militares. Ouvia também falar de Napoleão. Foi o velho do Marrare que me explicou quem ele era:
- Foi senhor da Europa e por pouco não era senhor do mundo. Perdeu-o tanta ambição. Dominou países e povos. Começou por ser soldado e tornou--se imperador. Os ingleses venceram-no vai para dois anos e agora vive como um preso numa ilha de onde talvez nunca mais consiga sair.
- Porque se fala tanto dele em Portugal? - perguntei.
- Porque foi ele que, por três vezes, mandou invadir o nosso país pelas suas tropas. Para muitos, durante muito tempo, o seu nome queria dizer liberdade, porque ele representava ideias novas, ideias capazes de mudarem o mundo.
- Eram Meias certas?
- Talvez fossem - respondeu-me o velho -, mas acabou por tentar realizá-las de uma maneira errada e por querer mais poder do que aquele a que devia ambicionar.
O velho que costumava falar sozinho à porta do Marrare não disse mais nada porque viu, no outro lado da rua, dois homens sisudos que só podiam ser polí¬cias à paisana, os "moscas" que dias antes nos tinham interrogado.

José Jorge Letria, A Teia de um Segredo


I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.

1.1. O que desassossegava o rapaz era:
a. a miséria de Portugal
b. estar a crescer muito depressa
c. não entender a política

1.2. Napoleão:
a. foi senhor do mundo
b. mandou invadir Portugal
c. representou sempre a liberdade

2. Transforma o terceiro parágrafo do texto em discurso indirecto.

3. Selecciona, nos dois primeiros parágrafos, situações que ilustrem a função sintácti¬ca de sujeito, segundo as indicações:
pronome pessoal
subentendido
pronome relativo
substantivo

4. O velho era uma pessoa astuta. Com base no texto, justifica esta afirmação.

II

Com base no texto, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O rapaz teve consciência da passagem da adolescência para o mundo adulto.