23.4.07

O jardim do Ramalhete




Carlos, por fim, conseguiu abrir largamente as duas portadas de uma janela. No terraço morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar puro, ali ficaram de pé, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda por um ou outro espirro retardado.
– Que infernal invenção! – exclamou Carlos, indignado.
Ega, ao fugir com o lenço na face, tropeçara, batera contra um sofá, coçava a canela:
– Estúpida coisa! E que bordoada que eu dei!...
Voltou a olhar para a sala, onde todos os móveis desapareciam sob os largos sudários brancos. E reconheceu que tropeçara na antiga almofada de veludo do velho «Bonifácio». Pobre «Bonifácio»! Que fora feito dele?
Carlos, que se sentara no parapeito baixo do terraço, entre os vasos sem flor, contou o fim do «Reverendo Bonifácio». Morrera em Santa Olávia, resignado, e tão obeso que se não movia. E o Vilaça, com uma ideia poética, a única da sua vida de procurador, mandara-lhe fazer um mausoléu, uma simples pedra de mármore branco, sob uma roseira, debaixo das janelas do quarto do avô.
Ega sentara-se também no parapeito, ambos se esqueceram num silêncio. Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez de Inverno, tinha a melancolia de um retiro esquecido, que já ninguém ama: uma ferrugem verde, de humidade, cobria os grossos membros da Vénus Citereia; o cipreste e o cedro envelheciam juntos, como dois amigos num ermo; e mais lento corria o prantozinho da cascata, esfiado saudosamente, gota a gota, na bacia de mármore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela marinha nas cantarias dos dois altos prédios, a curta paisagem do Ramalhete, um pedaço de Tejo e monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, preparado para a vaga, ia descendo, desaparecendo logo, como já devorado pelo mar incerto: no alto da colina o moinho parara, transido na larga friagem do ar; e nas janelas das casas, à beira da água, um raio de sol morria, lentamente sumido, esvaído na primeira cinza do crepúsculo, como um resto de esperança numa face que se anuvia.

Eça de Queirós, Os Maias, cap. XVIII



I

1. Integre este excerto na estrutura global da obra.

2. Que atitude revelam as personagens perante o espaço que as rodeia?

3. Refira o valor simbólico da descrição do jardim do Ramalhete e da paisagem que dele se observa.

4. Faça o levantamento dos principais recursos de estilo e comente o seu valor expressivo.

5. Considerado romance de família por uns, romance de personagem por outros, romance de espaço por outros ainda, Os Maias são, com certeza, uma obra narrativa cuja acção se centra em torno de uma personagem – Carlos.

5.1. Justifique esta afirmação, tendo em conta não apenas a intriga, mas também a crónica de costumes.


II

Duas estéticas literárias surgem confrontadas em Os Maias, através de personagens que manifestamente as representam. Partindo da caracterização dessas personagens, refira, numa composição cuidada, as características de tais estéticas.