6.2.09

A morte de Pedro da Maia




– Sim, mais tarde, depois pensarás nisso, filho – acudiu o velho assustado.
Nesse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo do corredor.
– Ainda janta cedo, hem? – disse Pedro.
Teve um suspiro cansado e lento, murmurou:
– Nós jantávamos às sete...
Quis então que o pai fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não jantasse. Ele ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada...
– O Teixeira que me leve um cálice de Genebra... Ainda cá está o Teixeira, coitado!
E vendo Afonso sentado, repetiu, já impaciente:
– Vá jantar, meu pai, vá jantar, pelo amor de Deus...
Saiu. O pai ouviu-lhe os passos por cima, e o ruído de janelas desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os criados, que, pela ama, sabiam decerto o desgosto, se moviam em pontas de pés, com a lentidão contristada de uma casa onde há morte. Afonso sentou-se à mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de Pedro; rosas de Inverno esfolhavam-se num vaso de Japão; e o velho papagaio agitado com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro.
Afonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco naquele melancólico crepúsculo de Dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste contra as vidraças, pensando em todas as coisas terríveis que assim invadiam num tropel patético a sua paz de velho. (...)
Pela casa no entanto tinham-se acendido as luzes. Já inquieto, subiu ao quarto do filho; estava tudo tão escuro, tão húmido e frio como se a chuva caísse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de Pedro veio do negro da janela; estava lá, com a vidraça aberta, sentado fora na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das ramagens, recebendo na face o vento, a água, toda a invernia agreste.
– Pois estás aqui, filho! – exclamou Afonso. – Os criados hão-de querer arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro.
Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um estremeção, desprendeu-se, impaciente daquela ternura do velho.
– Querem arranjar o quarto, hem? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem!

Eça de Queirós, Os Maias, cap. II



I

1. Insira este excerto na acção de Os Maias.

2. Apresente sinteticamente o assunto do texto.

3. Identifique o estado psicológico de Pedro, justificando a sua resposta com expressões do texto.

4. Refira as atitudes de Pedro que melhor revelam esse estado psicológico.

5. Identifique os elementos do texto que pressagiam a tragédia que se irá seguir.

6. Retire do texto três exemplos de recursos de estilo característicos de Eça de Queirós.


II

Contraponha numa composição cuidada as correntes literárias do Romantismo e do Realismo tendo em conta o texto acima transcrito.