19.1.09

Tragédia «Castro»






CASTRO
Meu senhor,
Esta é a mãe de teus netos. Estes são
Filhos daquele filho, que tanto amas.
Esta é aquela coitada mulher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Para eu segura, e livre te esperar,
Em ti, e em minha inocência confiada.
Escusaras, Senhor, todo este estrondo
De armas, e Cavaleiros; que não foge,
Nem se teme a inocência da justiça.
E quando meus pecados me acusaram,
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reais tão piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom rei,
Como clemente, e justo, e como pai
De teus vassalos todos, a quem nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? que vês em quem
Em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta é, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
Te andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, Senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo.
Mulher, moça, inocente, serva tua,
Tão só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a língua não se atreve, o esprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Eles falem por mim, eles sós ouve:
Mas não te falarão, Senhor, com língua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que é teu, te falarão: seu desamparo
Te está pedindo vida; não lha negues.
Teus netos são, que nunca até aqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, que em seus espritos
Lhe está Deus revelando de te verem.

REI
Tristes foram teus fados, Dona Inês,
Triste ventura a tua.
(…)

CASTRO
Que achará vosso pai, quando vier?
Achar-vos-á tão sós, sem vossa mãe:
Não verá quem buscava: verá cheias
As casas, e paredes de meu sangue.
Ah vejo-te morrer, senhor, por mim,
Meu senhor, já que eu mouro, vive tu.
Isto te peço, e rogo: vive, vive,
Empara estes teus filhos, que tanto amas.
E pague minha morte seus desastres,
Se alguns os esperavam. Rei senhor,
Pois podes socorrer a tantos males,
Socorre-me, perdoa-me. Não posso
Falar mais. Não me mates, não me mates.
Senhor, não te mereço.

REI
Ó mulher forte!
Venceste-me, abrandaste-me. Eu te deixo.
Vive, em quanto Deus quer.

CORO
Rei piedoso,
Vive tu, pois perdoas: moura aquele,
Que sua dura tenção leva adiante.

António Ferreira, Castro


I

Inês de Castro, perante o Rei, defende-se invocando a sua situação e provando a sua inocência. Recorde a obra e faça uma análise dos excertos da tragédia, de acordo com os seguintes tópicos:
• Caracterização da Castro.
• Argumentos utilizados em sua defesa.
• As reacções do Rei e o conflito que se percebe.
• Os sentimentos manifestados pelos intervenientes.
• Os valores estéticos e estilísticos.


II

Utilize um máximo de 10 linhas para abordar, de forma sumária, as razões que conduzem Inês à morte, na tragédia Castro de António Ferreira.


III

Vários autores, como, por exemplo, Camões n'0s Lusíadas, se interessaram pelo drama de Inês de Castro e ainda há quem se inspire nele.
Elabore um texto de opinião sobre o significado e o interesse deste episódio.