27.1.09

Nunca te resignes



A minha sina era subir e descer várias vezes ao dia a Rua do Salitre para trazer e levar recados e para receber a encomenda de pequenas compras das mulheres de alguns militares que ali moravam. Toda a gente gostava de mim, porque era ágil e alegre e dava sempre muito boa conta daquilo que me mandavam fazer. Se não descobria à primeira aquilo que me encomendavam, ia tentando até encontrar. Por isso recebia sempre mais umas moedas, para além daquelas com que o meu trabalho devia ser pago. Tinha ficado órfão de pai e, naquela Lisboa, que, depois da invasão dos franceses, conhecia agora a autoridade e o mau feitio dos ingleses, eu era obrigado a fazer pela vida se queria ter uma sopa quente ao fim do dia, com umas rodelas de chouriço e urnas fatias de broa de milho a acompanhar. A minha mãe, padecendo de reumatismo que lhe fazia doer os ossos das mãos e das pernas, lavava o soalho de algumas casas e costurava por encomenda vestidos e casacas de homens. Quando o dia era de descanso, e havia muito poucos que o fossem, nem paciência tinha para ir comigo passear para as bandas do rio. Havia uma grande tristeza nos seus olhos (...). Naquele ano de 1817, já com quinze anos feitos, seco de car¬nes e nervoso como um rato do campo, eu não tinha mãos a medir: limpava montadas de militares e magistrados, dava polimento a arreios, levava e trazia cartas de namorados. Como aprendi a ler já tarde, com a ajuda de um frade dominicano que também me ensinou um pouco de latim, não perdia a oca¬sião de ler tudo aquilo que me vinha parar às mãos, fosse folheto de cordel, daqueles que os cegos contavam, recitavam e vendiam nas ruas, fosse livro ou papel anónimo com rimas de pé-quebrado. Lembro-me que um dia, um desses papéis me trouxe grandes dissabores. Encontrei-o na entrada de uma das casas onde costumava ir fazer recados, na Rua do Salitre, e dizia qualquer coisa como isto:
"Quem perde Portugal? O marechal. / Quem sanciona a Lei? O Rey. / Quem são os executores? Os governadores. / Para o marechal, um punhal, / para os governadores, os executores."
Confesso que logo na primeira leitura me agradou a rima, mas não percebi quem eram as pessoas de quem os versos falavam, pois eu de política nada sabia. Só sabia que as pessoas andavam descontentes, com pouco dinheiro e cansadas de serem mandadas por estrangeiros, fossem eles franceses ou ingleses. A minha opinião, ninguém a queria saber, mas, se me perguntassem, eu
respondia logo que deviam ser os portugueses a mandar em Portugal. Na altura não podia imaginar até que ponto era arriscado ter opiniões destas e ser capaz de as defender em voz alta. Eu era ainda muito novo e inexperiente e sabia muito pouco da vida e do mundo. Tinha, pela frente, muita, muita coisa para aprender.

José Jorge Letria, A Teia de um Segredo



Notas:
ágil: que se move com facilidade; leve; vivo.
dominicano: da ordem de S. Domingos.
folheto de cordel: livro de poucas folhas atado com um fio.
anónimo: não assinado.
rimas de pé-quebrado: versos com irregularidade rítmica ou métrica (cada parte rítmica em que se divide um verso é um pé).
dissabores: desgostos.



I

1. De entre cada grupo de afirmações, assinala a que, segundo o texto, é verdadeira.
1.1. A mãe do rapaz:
a. passava fome
b. trabalhava muito
c. não se importava com ele

1.2. A acção passa-se:
a. no século XIX
b. durante as invasões francesas
c. no século passado

2. Há passagens no texto que caracterizam o rapaz de forma directa e indirecta.
2.1. Selecciona as que caracterizam o rapaz de forma directa.
2.2. Selecciona as que caracterizam o rapaz de forma indirecta.
2.3. Constrói o retrato da mãe do narrador a partir das informações contidas no texto.

3. Identifica as duas primeiras formas verbais do último parágrafo e faz-lhes corresponder os respectivos sujeitos.

4. Sintetiza por palavras tuas as informações que o texto fornece sobre a sociedade lisboeta da época.


II

Com base no excerto analisado e também com a ajuda de transcrições, elabora um comentário com cerca de sessenta palavras, sobre a seguinte afirmação:

O narrador mostra-se muito observador e empenhado.