1.1.09

Mestre Damião


Tanoeiro de seu ofício, Mestre Damião foi um exemplo de dedicação à vida associativa na «Incrível Almadense», colectividade de recreio e cultura fundada em 1848. Nela desempenhou diver-sas funções, entre as quais a de director da prestigiosa Banda. Já velho e alquebrado, procura man-ter bem viva a tradição musical, dando lições a um grupo de jovens aprendizes.
A aula de mestre Damião era um cubículo da velha Incrível, lugar dos armários do arquivo da Banda, anexo ao bulhento gabinete da Direcção. Às terças e sábados, o septuagenário subia a esca-da no seu passo alquebrado, estacionando no primeiro patamar, a renovar fôlego para trepar os res-tantes degraus. Raramente faltava [...]
Era magro, afilado, guedelhas brancas e olhar vivo. Arrastava uma perna, dava saliência às ancas, curvava o tronco adiante da linha dos pés. Desprovido de abafos e de conforto, aparecia, em muitas noites de chuva, encharcado, triste de figura, a ponto de provocar compaixão aos rapazes. Residia na Rua da Judiaria, num vago casebre, onde reunia, numa balbúrdia de pocilga, os seus parcos tarecos caseiros com a tralha do ofício. O banco de carpinteiro servia muitas vezes de mesa de cozinha, de refeitório, de cabide para roupas – e era lá que lia também o jornal e tratava da gaiola do pássaro. Vivia rodeado de recordações: fotografias e programas encaixilhados, suspensos das paredes relíquias amarelecidas. Enviuvara há muito. Filhos, perdera-os também na voragem do tempo. Restava a sua arte, a menina dos seus olhos, a paixão de uma vida toda: a Música. A ela dedicara o melhor do seu entusiasmo, todo o seu vigor. A Incrível tinha-o desde catraio. Quase medrara sob os seus tectos. Seu pai, executante da Banda, logo o metera ao solfejo, antes de as suas mãos manobrarem a plaina e o formão. Durante largos anos, cumpriu a tradição da família. Foi contramestre, director da Banda, e ocupou numerosos cargos no quadro directivo da colectividade. Mas, mais do que tudo isto, um motivo havia que o tornara venerável no meio associativo: ser o único sobrevivente da famigerada cisão - a rixa que originara a fundação da Outra. Damião fora dos teimosos, dos poucos do finca-pé ao Zé Maria d' Oliveira e quejandos. Dias heróicos, inesquecíveis! Desfalcada, sem recursos, a colectividade estivera prestes a soçobrar. Meses de comédia, de vida artificial mesmo depois de a Academia surgir pelas ruas, com pessoal fardado e a tocar. Debelada a crise, regressados alguns desavindos, novos candidatos preencheram a proposta... E a vida associativa serenou. Morreram companheiros, amigos, discípulos. Melhoraram-se instalações, ampliaram-se benefícios – caprichando-se sempre por fazer mais do que na Outra. Grupo cénico, escola de música, orfeão, concertos, arraiais, passeios terrestres e marítimos -assinalavam actividades memoráveis. O cunho familiar predominava no espírito de associação. E, embora as relações entre as rivais fossem tensas, o movimento associativo criava ramificações por toda a vila. Recreio, cooperativismo, socorros mútuos, humanitarismo, desporto – borbotaram a cada necessidade da grei. Envelhecido, pálida sombra do que fora, Damião entregara o instrumento e a farda, incapaz de aguentar o andamento de uma marcha. Caducara, é certo, mas jamais abandonaria a menina dos seus olhos... Os seus ensinamentos, a sua paciência seriam preciosos para a gente nova. Enquanto as secas pernas lhe permitissem sair de casa para ir aturar os rapazes, a sua contribuição não cessaria. E, naquela noite, subiu a escada com muito esforço: fez paragens, resfolegou, mas ainda entrou a horas:
-Boa noite.
Os aprendizes vieram da sala de jogos e corresponderam à saudação:
-Boa noite, mestre Damião!
Foram entrando no cubículo, risonhos, azougados. Acotovelaram-se na estreiteza da porta. Houve uma rasteira. Vitorino desconfiou e respondeu, à socapa, com um pontapé.
Paredes forradas a papel, fotografias de sujeitos antigos, um quadro alusivo a data inesquecível. Dois armários repletos de papelada. Instrumental niquelado recolhido a um canto. Bancos, cadeiras e uma estante.
Alfredo apresentou-se ao mestre. Este mirou o rapazelho por cima dos óculos e disse-lhe:
- Já sei... O teu pai falou comigo... Estás disposto a aprender? - E ainda, com leve sorriso: - O teu avô foi um grande músico e um grande amigo meu!...


Romeu Correia, Os Tanoeiros (1976)



I


1. «Envelhecido, pálida sombra do que fora, Damião entregara o instrumento e a farda, inca paz de aguentar o andamento de uma marcha. Caducara, é certo, mas jamais abandonaria a menina dos seus olhos... Os seus ensinamentos, a sua paciência, seriam preciosos para a gente nova.»
1.1 Apesar de tudo, «raramente faltava». Não teria Mestre Damião razoes bastante fortes que o levassem a não comparecer assiduamente aos ensaios?
1.2 Como justifica, então, a sua persistência em continuar a ensinar a arte musical?

2. Reconte, por palavras suas, a vida de Mestre Damião que «vivia rodeado de recordações».

3. Elabore o retrato físico desta personagem.

4. Mas nem tudo fora um «mar de rosas» na Incrível Almadense, que passou por diversas vicissitudes.
4.1 Refira o acontecimento que pôs em perigo a sua existência.
4.2 Mestre Damião recordava esse tempo como tendo sido de «Dias heróicos, inesquecíveis!» Justifique o seu ponto de vista.

5. A Academia era a banda rival da vila. Contudo, aparece designada por a «Outra», ao longo do texto. Indique as razoes deste tratamento e refira o valor expressivo que o pronome adquire neste caso.
6. «...Mas jamais abandonaria a menina dos seus olhos...» .
6.1 Esclareça a conotação existente na expressão «menina dos seus olhos».
6.2 Classifique morfologicamente os constituintes da frase transcrita.

7. Comente as atitudes dos rapazes, perante o seu velho Mestre.

8. O texto termina com a apresentação de um novo aprendiz, um «rapazelho».
8.1 Como o recebeu Mestre Damião?
8.2 Classifique, quanto ao processo de formação, a palavra «rapazelho» e explique o significado que lhe conferiu o respectivo afixo.