18.7.07

Memórias de viagens





Por onde andaram os portugueses dos séculos XV e XVI? Que caminhos seguiram e que dificuldades encontraram? Que novidades trouxeram ao conhecimento de uma Europa inquieta mas interessada? Eis perguntas que exigem, sem dúvida, esclarecimentos tão completos quanto possível.
Todavia, excluídos os casos das grandes figuras, como a de um Vasco da Gama ou de Pedro Álvares Cabral, só raras vezes é possível conhecer com aproximado rigor os caminhos percorridos por esses navegadores, viajantes e aventureiros; com efeito, isso apenas acontece quando da viagem realizada ficou uma relação que o próprio redigiu, ou quando documentação avulsa dela se ocupa, ou, ainda, quando cronistas ou outros escritores próximos dos acontecimentos a ela se referem; tais casos são, evidentemente, excepcionais, pois enquanto esses testemunhos se contam por dezenas, é certamente de muitas centenas ou de milhares o número de viajantes, navegadores e aventureiros que empreenderam digressões cheias de interesse, pelo inesperado e pelo insólito das situações criadas.
Há várias provas de que assim aconteceu, mas apenas registaremos uma. Por meados do século XVI, D. João de Castro queixava-se, em carta ao rei, de que, de cada cem portugueses que a Coroa mandava anualmente à Índia, só dois ou três ficavam ao serviço real, no Exército, na Marinha ou na Administração: todos os restantes se sumiam, dirigindo-se aos mais variados lugares, alguns deles tão longínquos ou recônditos que, como escreveu pitorescamente o governador, não tiveram deles notícia Ptolomeu, considerado ainda o maior dos geógrafos, nem Plínio, autor romano de uma volumosa enciclopédia em que a geografia não está esquecida. Castro terá exagerado, mas a disseminação de muitos milhares de portugueses por toda a Ásia foi um facto, e cada um deles viveria certamente a sua aventura.
E não só pela Ásia. Espalhados por todos os continentes da Terra então conhecidos, aí lutaram e enriqueceram ou levaram uma vida miserável, enraizando-se nos novos lugares encontrados, quando se supunha ter à mão uma quimera fugaz, e se não era obrigado a uma vida errante, dia a dia à procura de melhor sorte.
De alguns, ainda que poucos, podem-se acompanhar as trajectórias, embora sobre elas fre-quentemente incidam sombras impenetráveis. De outros, ainda em menor número, temos os relatos que, como já se disse, eles mesmos deixaram, escritos quase sempre num sentido narrativo, em que se registavam quotidianamente as experiências vividas, e não raro também as adversidades sofridas, quer pelas asperezas da jornada, quer pela animosidade das gentes com que eram forçados a ter contactos.
Muitos passaram sedes e fomes, foram roubados por quadrilhas que vigiavam desertos e serranias e assaltavam as cáfilas durante as noites passadas em planícies agrestes ou em vale inóspitos; outros foram aprisionados por muçulmanos ou por gentios, e até vendidos como escravos; e alguns não terão sobrevivido às provações que os esperavam. Mas quase todos aprenderam as línguas que à sua volta se falavam, observaram argutamente os meios que os rodeavam, foram imaginativos para ultrapassar as dificuldades que se lhes deparavam, e, à sua maneira, contribuíram para o conhecimento deste planeta em que vivemos.

Luís de Albuquerque, Navegadores, Viajantes e Aventureiros
(Texto Adaptado)


I

Responda às quatro questões que se seguem com um máximo de cinco linhas para cada uma.

1. Qual é, segundo o autor, a origem da dificuldade em se " conhecer com aproximado rigor" os caminhos percorridos pelos navegadores, viajantes e aventureiros de que fala o texto?

2. Considera que, segundo o autor, os " portugueses que a Coroa mandava anualmente à Índia" tiveram todos trajectórias de vida idênticas? Justifique, baseando-se no texto .

3. Pode depreender-se do texto que os portugueses foram sempre bem recebidos pelos povos de que se aproximaram? Justifique.