7.1.09

A Fuga de Wang-Fô



— Perguntas-me que foi que me fizeste, velho Wang-Fõ? — tornu o Imperador, inclinando o pes-coço delicado para o velho que o escutava. — Vou-to dizer. Mas como o veneno dos outros só pode penetrar em nós pelas nossas nove aberturas, para te conduzir à presença dos teus erros tenho de passear-te pelos corredores da minha memória e contar-te toda a minha vida. Meu pai reunira uma colecção das tuas pinturas no aposento mais secreto do palácio, pois entendia que as personagens dos quadros devem ser subtraídas à vista dos profanos, na presença dos quais não podem baixar os olhos. Foi nestas salas que fui criado, velho Wang-Fô, pois haviam organizado a solidão à minha volta para me permitirem crescer nela. Para evitar à minha candura o contágio das almas humanas, haviam afastado de mim a agitada torrente dos meus futuros súbditos, e não era permitido a ninguém passar à soleira da minha porta, não fosse a sombra desse homem ou dessa mulher estender-se até mim. Os poucos velhos servos que me haviam destinado mostravam-se o menos possível; as horas giravam em círculo; as cores das tuas pinturas acendiam-se com a alvorada e empalideciam ao crepúsculo. De noite, quando não conseguia dormir, olhava-as e, durante cerca de dez anos, olhei-as todas as noites. De dia, sentado num tapete cujo desenho conhecia de cor, repousando as minhas mãos vazias nos meus joelhos de seda amarela, sonhava com as alegrias que o futuro me traria. Imaginava o mundo, com o país de Han ao meio, semelhante à cava e monótona planície da mão sulcada pelas linhas fatais dos Cinco Rios. A toda a volta, o mar onde nascem os monstros e, mais longe ainda, as montanhas que sustentam o céu. E para me ajudar a 25 imaginar todas estas coisas, servia-me das tuas pinturas. Levaste-me a crer que o mar era semelhante à imensa toalha de água desdobrada nas tuas telas, tão azul que pedra que nele caísse só em safira se podia tornar, que as mulheres se abriam e fechavam como flores, iguais às criaturas que avan-çam, levadas pelo vento, nas áleas dos teus jardins, e que os jovens 30 guerreiros de corpo esguio postados nas fortalezas das fronteiras eram flechas capazes de trespassar corações. Aos dezas-seis anos vi abrirem-se as portas que me separavam do mundo: subi ao terraço do palácio para olhar as nuvens, mas eram menos belas do que as dos teus crepúsculos.

In A Salvação de Wang- Fô, de Marguerite Yourcenar



I

1. Selecciona para cada palavra, atendendo ao contexto em que ocorre, um significado equivalente.

1.1. Subtraídas
a) diminuídas
b) visíveis
c) levantadas
d) afastadas

1.2. Candura
a) tranquilidade
b) pureza
c) simplicidade
d) beleza

1.3. Cava
a) funda
b) longa
c) cultivada
d) deserta

1.4. Sulcada
a) cortada
b) escondida
c) banhada
d) envolvida

1.5. Áleas
a) árvores
b) penedos
c) casas
d) fontes

1.6. Postados (
a) móveis
b) fixos
c) colocados
d) calados


II

Responde, agora, às seguintes questões.

1. O texto que acabaste de ler é um excerto do discurso do Imperador, personagem do conto A Salvação de Wang-Fô, de Marguerite Yourcenar.
1.1. O que conta ele neste discurso?
1.2. Por que motivo o faz?

2. O pai do Imperador reunira ao longo da sua vida uma colecção.
2. l. Em que consistia essa colecção?
2.2. Que relação existe entre a colecção e Wang-Fô?
2.3. Qual o local escolhido para a guardar?
2.4. Explica a razão dessa escolha.

3. A juventude do imperador foi marcada pela solidão. Transcreve uma frase do texto que confirme esta afirmação.

4. Explica por palavras tuas a seguinte frase:
As cores das tuas pinturas acendiam-se com a alvorada e empalideciam ao crepúsculo.

5. Durante cerca de dez anos o que fazia o Imperador todas as noites?

6. Como imaginava ele o mundo?

7. Qual a influência de Wang-Fô para a visão que o Imperador tinha do mundo?

8. Aos dezasseis anos o Imperador saiu, finalmente, das salas onde cresceu. Atendendo ao conhe-cimento que tens acerca do conto indica:
a) O que é que mudou na sua visão acerca do mundo.
b) De que forma esta mudança contribuiu para o final da história.


III

1. Atenta na seguinte frase.
Imaginava o mundo, com o país de Han ao meio, semelhante à cava e monótona planície da mão sulcada pelas linhas fatais dos Cinco Rios.
1.1. Identifica quais os adjectivos nela presentes.
1.2. Refere quais os que são uniformes quanto ao género.
1.3. Diz qual o nome que cada um dos adjectivos caracteriza.

2. Indica em que grau se encontram os adjectivos secreto e belas nas frases que se seguem.
a) Meu pai reunira uma colecção das tuas pinturas no aposento mais secreto do palácio.
b) Subi ao terraço do palácio para olhar as nuvens mas eram menos belas do que as dos teus cre-púsculos.

3. Redige uma frase em que o adjectivo antigo apareça no feminino plural, no grau superlativo absoluto sintético.

4. Coloca os verbos entre parênteses no Pretérito Perfeito do Indicativo.
Ling ______ (nascer) no seio de uma família rica e _____ (ser) educado para viver sem preocu-pações. Quando _________ (encontrar) Wang-Fô, as coisas ________ (mudar). A sua vida nunca mais _______ (voltar) a ser a mesma.

5. Coloca os verbos entre parênteses no Pretérito Imperfeito do Indicativo.
_______ (estar) um lindo dia. Os pássaros __________ (cantar) e as flores ________ (ter) uma cor especial. Wang-Fô _______ (pintar) a natureza tal
como a ________ (ver).

6. Coloca os verbos entre parênteses no Pretérito Mais-que-Perfeito do Indicativo.
Wang-Fô ________ (ser) o pintor mais famoso do seu tempo. ________ (nascer) com um dom que mais ninguém possuía e __________ (pintar) os quadros mais belos do mundo. Este homem __________ (deixar) a sua família e __________ (dedicar-se) apenas à sua arte.


IV


Num texto bem estruturado e com correcção gramatical, inventa outro final para o conto A Salvação de Wang- Fô, de Marguerite Yourcenar.