31.12.08

A Viagem


Era uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povo português, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – mais de quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo para a Índia. A Índia parecia então, aos olhos de todos os Europeus, como terra de esplendor e de riqueza, que todos os homens desejavam, mas onde era difícil, quase impossível chegar.
Quatro pequenos navios, - tão pequenos sobre o imenso e ignorado Oceano! – quatro naus coman-dadas pelo grande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através do Atlântico, só conhecido até ao cabo da Boa Esperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vela para a região que demandavam.
O vento era brando, o mar sereno. Até então a viagem correra sossegada. Mas os perigos seriam constantes, a travessia arriscada, a viagem longa. E ninguém sabia ao certo o rumo a seguir, pois nunca outra gente se atrevera sequer a tentar tão comprida e custosa navegação.
Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz da proeza heróica!
Iam os barcos já na costa de Moçambique, rápidos, entre a branda espuma de ondas.
A Índia estava longe.
Mas o caminho para alcançá-la era aquele, diziam os sábios e marinheiros – e decerto lá chegariam Vasco da Gama e os seus marujos, se o vento e o mar lhes fossem favoráveis e, sobretudo, se a coragem os não abandonasse.
Ai deles, porém!
Sempre que um povo ou um homem tenta desvendar e conhecer paragens até então ignotas, ou realizar um acto nobre e grande, parece que as forças da Natureza, ou a inveja dos outros homens, tudo fazem para os não deixar vencer...
Iam senti-lo e sabê-lo bem os nossos temerários antepassados!
E antes de senti-lo e sabê-lo – já os deuses ou forças, que vivem nas coisas e nas almas, discutiam se sim ou não os deviam deixar triunfar.
Júpiter, que era o Deus dos Deuses, senhor do Mundo; Vénus, filha de Júpiter, Deusa do Amor e da Ternura; Baco, o Deus da Folia e do Vinho; Marte, o Deus da Guerra; Apolo, o Deus da Luz e do Calor; e Neptuno, o Deus do Mar, juntaram-se todos para resolver se dariam ou não auxílio aos portugueses.
Basta que Júpiter desencadeasse um grande temporal sobre as frágeis embarcações, para que o naufrágio as engolisse logo e, com elas, os tripulantes e o próprio Vasco da Gama...
Era isto o que nem Vénus nem Marte – amigos dos Portugueses, que são, como ambos esses Deuses, afectuosos e valentes – de maneira alguma queriam.
Mas Baco – sempre tonto e mau, que tivera outrora grande poder na Índia e receava que os Por-tugueses, conquistando-a, até a lembrança do seu reinado de lá afastassem – Baco preparava-se para os inquietar, desanimando a lusa energia com toda a espécie de maldades e perfídias.
No palácio luminoso, perto das estrelas, em que habitualmente se reuniam – grande conversa e discussão houve entre os Deuses a propósito dos nossos Portugueses e da melhor decisão a tomar sobre o destino das suas naus...

Os Lusíadas de Luís de Camões Contados às Crianças e lembrados ao Povo,
adaptação em prosa de João de Barros, Livraria Sá da Costa



I


1. O texto aparece dividido em duas partes. A primeira termina com as seguintes palavras: "Só a coragem e a audácia dos Portugueses seria capaz da proeza heróica!".
1.1. Diga de que proeza se trata.
1.2. Localize essa proeza quanto ao tempo.

2. Observe a seguinte frase: "Era uma vez um povo de marinheiros e de heróis, o povo português, o nosso povo, que já lá vão muitos anos – mais de quatrocentos – quis descobrir o caminho marítimo para a Índia."
2.1. Classifique o narrador quanto à sua presença. Justifique a sua resposta.
2.2. Reescreva a frase, modificando a presença do narrador. Não se esqueça de fazer as devidas alterações.
2.3. O autor desta proeza heróica é uma personagem individual ou colectiva? Justifique a sua resposta.

3. Atente na seguinte transcrição: "Quatro pequenos navios, (...) quatro naus comandadas pelo grande capitão Vasco da Gama, lançaram-se através do Atlântico, só conhecido até ao Cabo da Boa Esperança, dobraram esse Cabo e puseram-se de vela para a região que demandavam.
3.1. Indique a que classe morfológica pertencem as palavras sublinhadas.
3.2. Classifique-as quanto ao tempo, pessoa e número.
3.3. Identifique o modo de organização do discurso utilizado. Justifique a sua resposta.
3.4. Refira outro modo de organização do discurso que conheça e exemplifique com uma frase do texto.

4. Observe a frase: "O vento era brando, o mar sereno. (...) Mas os perigos seriam constantes, a travessia arriscada, a viagem longa."
4.1. Complete a seguinte grelha fazendo o levantamento de todos os nomes e adjectivos presentes na frase acima transcrita.
4.2. Indique o recurso expressivo utilizado para descrever o início da viagem.

5. Na segunda parte, o narrador identifica todas as personagens e situa-as em espaços distintos.

6.1. Identifique as personagens e classifique-as quanto ao tipo.
6.2. Localize-as nos seus respectivos espaços.
6.3. Transcreva do texto uma frase que justifique o objectivo da reunião dos deuses.
6.4. Refira quem e por que motivo se opunha à concretização do sonho dos Portugueses.