10.12.08

Sobre sapatos e dores de alma



Sou do tempo (há anos que desejo escrever uma crónica que comece assim) em que para comprar um par de sapatos fazia falta alguma coragem. Naquela época todos os sapatos novos magoavam os pés e tínhamos de recorrer a artifícios vários, como calçar três pares de meias ou proteger os calcanhares com adesivos, para diminuir os estragos. No tempo do meu avô era ainda pior: um dos truques então em voga consistia em encher os sapatos com milho húmido de forma a que os grãos, ao germinarem, dilatassem e suavizassem o couro. Os jovens de hoje, dispensados deste tormento doméstico, esquecem-se que têm calcanhares - porque só nos lembramos daquilo que nos dói - e como Aquiles, o herói grego, julgam-se invulneráveis. Receio, assim, que a evolução da indústria dos sapatos tenha tornado a humanidade um pouco mais arrogante.
Não pretendo, é claro, defender a dor. Sei muito bem que há dores inúteis. As dores de cabeça, por exemplo, as dores de dentes, as cólicas menstruais. Apenas aqueles que já sofreram com uma enxaqueca sabem o que é não ter nunca dores de cabeça; quem nunca foi realmente infeliz não sabe o que é a felicidade. A aspirina merece sem dúvida os conhecidos versos de João Cabral de Melo Neto: "Claramente: o mais prático dos sóis, / o sol de um comprimido de aspirina: / de emprego fácil, portátil e barato, / compacto de sol na lápide sucinta. / Principalmente porque, sol artificial, / que nada limita a funcionar de dia, / que a noite não expulsa, cada noite, / sol imune às leis de meteorologia, / a toda a hora em que se necessita dele / levanta e vem (sempre num claro dia)".
É um facto, porém, que na maior parte das vezes só descobrimos a existência de certos órgãos internos, como o fígado ou os pulmões, quando eles, funcionando mal, se anunciam através da dor ou de algum pequeno desconforto. Existem, do mesmo modo, dores de alma que podem ajudar-nos a descobrir, nos limites de nós próprios, paisagens insuspeitas. Não tendo à mão uma aspirina, um sol portátil, capaz de iludir estas dores, o mais sensato é tentar usá-las a nosso favor; por exemplo, como sondas para melhor avaliar a natureza da nossa alma, dos seus abismos escuros, dos seus rios subterrâneos, das suas florestas estranhas e silenciosas. Exploradores de nós próprios, navegadores solitários, poderemos, quem sabe?, encontrar nesses lugares esquecidos novas e melhores razões para enfrentar a vida e voltar a sorrir. A dor, afinal, pode ser apenas o princípio da cura.

José Eduardo Agualusa, in revista X, 5 de Novembro de 2000



I

1. No primeiro parágrafo, o autor refere-se a três momentos temporais.
1.1. Identifica-os, copiando as expressões do texto que os situam.
1.2. Explicita a relação homem/sapatos novos em cada um desses momentos.

2. "Receio, assim, que a evolução da indústria dos sapatos tenha tornado a humanidade um pouco mais arrogante."
2.1. Substitui o vocábulo sublinhado por um sinónimo, tendo em conta o contexto.
2.2. Explica como é que o cronista chegou a esta conclusão.

3. "Não pretendo, é claro, defender a dor."
3.1. Destaca, no segundo parágrafo, os hipónimos do hiperónimo destacado.

4. Relê os versos de João Cabral de Melo Neto, dedicados à aspirina.
4.1. Qual a metáfora a que o poeta recorre para evidenciar as qualidades do referido medicamento?
4.2. Sinaliza a tripla adjectivação usada na caracterização deste medicamento.

5. Acabar com as "dores de alma" não é tão fácil como tomar uma aspirina para as dores de cabeça.
5.1. Qual é a solução que o cronista propõe, para estes casos?

6. O título desta crónica é, aparentemente, estranho. Justifica a pertinência da sua escolha.


II

1. Atenta no último parágrafo do texto.
1.1. Detecta neste parágrafo os seguintes mecanismos de coesão:
- termos e expressões que fazem referência à mesma realidade (palavras que apresentam, entre elas, uma relação semântica - sinónimos, hiperónimos e hipónimos);
- uso de conectores.


III

1. Há pequenas coisas que são, de facto, muito importantes na nossa vida. A aspirina, por exemplo. Ou o clip... Já pensaste como este pequeno objecto, aparentemente tão simples, facilita tanto algumas tarefas?
Na sequência deste raciocínio, pensa nas pequenas coisas da tua vida que, para ti, são funda-mentais. De seguida, escreve um pequeno texto - que tenha entre 100 e 130 palavras - exaltando as suas qualidades.