3.12.08

Menina e Moça


Prólogo

Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda pequena, não a soube. Agora não lhe ponho outra senão que parece que já então havia de ser o que depois foi. Vivi ali canto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas coisas trocadas por outras, e o prazer feiro mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.
Escolhi para meu contentamento (se entre tristezas e cuidados há aí algum) vir-me viver a este monte onde o lugar e a míngua2 da conversação da gente fosse como já para meu cuidado cumpria, porque grande erro fora, depois de tantos nojos1 quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda a esperar do mundo o descanso que ele não deu a ninguém, estando eu assim só, tão longe de toda a gente e de mim ainda mais longe, donde não vejo senão serras que se não mudam, de um cabo, nunca, e do outro águas do mar que nunca estão quedas, onde cuidava eu já que esquecia à desaventura porque ela e depois eu, a todo poder que ambas pudemos, não deixámos em mim nada em que pudesse achar lugar nova mágoa; antes tudo, havia muito tempo, como há, que é povoado de tristezas, e com razão.

Menina e Moça, 1554






I

1. Analise a narrativa com base nos tópicos seguintes:
• acontecimento fundador da memória narrada;
• confronto entre o relevo dado à identificação dos factos (narrados ou aludidos) e à descrição dos sentimentos do "eu».

2. Esta obra é uma história de vida real ou ficcionada? Porquê?

3. Refira as características do português clássico presentes no texto.

4. Partindo dos elementos do texto, faça uma descrição, de cerca de cem palavras, do lugar onde o «eu» se encontra.