5.12.08

Esta Cidade






O campo dava à lisboeta aquele gosto, aquele regalo que costuma geralmente dar aos citadinos: surpresas, uma certa beatitude, o despertar da imaginação...
No campo há sempre patentes as coisas naturais e não de fabrico: o chão verde, o sol, a chuva, a água corrente e as nuvens. Até a gente que passa ou que trabalha nos parece espontânea e mais simples:
Com isto e pouco mais se amanha uma paisagem de recreio, se passam umas boas férias rurais.
Esta aldeia era de lavadeiras, construída em socalcos entre dois ribeiros. No Verão dispensavam-se as suas melhores casas à gente de Lisboa. Mas os forasteiros, quer chegassem cedo quer chegassem tarde, de tão costumeiros que eram não produziam a mínima impressão no indígena. E assim esta lisboeta têmpora, arribada na Páscoa, corria os campos à sua vontade. A ela é que as novidades da terra, toda aquela rebentação primaveril, enchiam de exaltação.
Quando entrou pela primeira vez no quarto muito caiado que lhe alugou a senhora Pintabela, sentiu-se tranquila. Aquilo não era mundo, mas repousava-a, não a afligia. As paredes eram tortas e grossas, com um janelinho quadrangular lá em cima... Talvez que se não desse ali muito mal!
Na cama, bastante larga e asseada, de bom colchão mexido, passava as suas noites e as suas sestas. Também tinha uma mesinha para os livros e para a costura. De pé, via um grande bocado de céu e até os telhados mais altos da vizinhança. A vida sossegada, rarefeita, que palpitava na casa e em todo o seu arredor, serenava-a. (...)
Como não tinha muito tempo para viver fora da cidade, aproveitava todas as manhãs e todas as tardes para passear e se sentir despreocupada. Descobria caminhos, entusiasmava-se com os seixos dos ribeiros e as gaitas de cana dos rapazitos, com a cor do céu e as flores do campo. Era romântica. (...)
Por tudo isto Helena via o campo através de um prisma poético e mesmo enternecido, um agradável prisma que a desenfadava da sua vida ordinária. (...)
Depois voltaria ao seu fadário: biblioteca, casa... casa, biblioteca... Esperavam-na os verbetes e um sótão de livros!

Irene Lisboa, Esta Cidade (1942)



I

1. Faz a divisão do texto em partes, dando um título a cada uma delas.

2. O chão verde, o sol, a água corrente e as nuvens são coisas naturais.
2.1. Existindo também estes elementos na cidade, por que lhe dá o autor tanto relevo?
2.2. Indica outros factores que contribuam para a tranquilidade de espírito do citadino em férias.

3. A chegada de um estranho a uma aldeia provoca sempre uma certa agitação.
3.1. Como justificas que a vinda dos citadinos nada alterasse no quotidiano da aldeia?
3.2. Encararia a lisboeta a mudança de ambiente com igual tranquilidade? Fundamenta a resposta.
3.3. Regista os elementos descritivos do ambiente em que Helena começou agora a viver.
3.4. Qual o elemento comum que, em férias, a mantém ligada à sua vida de trabalho?

4. Como verificas, este texto é um exemplo de discurso em 3.ª pessoa.
4.1. Transforma o quinto parágrafo num discurso de 1ª pessoa.
4.2. Identifica a função de linguagem presente neste parágrafo, antes e depois da transformação realizada. Justifica.


II

Elabora um pequeno texto-resposta e comentário a esta pergunta:
A cidade no campo ou o campo na cidade?