15.12.08

Eu sou mais do que tu



Deus e a Terra zangaram-se uma vez. A Terra disse:
— Deus, eu sou mais poderosa.
— Por que é que tu és mais do que eu?
— Porque sou eu que dou a comida que tu comes com a tua família. Deus limitou-se a dizer:
— Han... Eu já te vou mostrar.
— Não podes mostrar nada.
— Eu já te digo...
Deus subiu e foi imediatamente fechar a chuva.
Tudo na Terra, pessoas, animais, plantas, tudo ficou sem água. Veio a seca. Os ani¬mais começaram a morrer por falta de água. As plantas secaram todas. Pilava-se o arroz e comia-se cru. Nem sequer havia água para cozinhar.
A Terra começou a pensar e mandou reunir os animais que ainda restavam:
— Quem pode ir falar com Deus?
Todos procuravam esquivar-se. «Han... eu não», «Eu?... Desculpe, senhora Terra, mas eu não posso».
Nessa altura a Terra perguntou à lebre.
— Deixa cá ver. Bem, amanhã de madrugada, posso ir. A Terra disse então:
— Quando chegares, bates à porta e dizes: «A Terra manda dizer que já sabe que tu és mais do que ela. Para teres paciência e dares um bocado de água, porque as famílias estão todas a morrer de sede».
A lebre foi, andou, andou, andou até que chegou. Sentiu pessoas a pilar arroz lá den¬tro no céu e bateu ao portão.
Uma mulher grande que estava sentada a comer farelos, ouviu e disse:
— Não ouviram bater?
Lá dentro ninguém acreditou.
— Come mas é os farelos e deixa-te de mentiras. Ninguém pode chegar até aqui. A lebre voltou a bater e a mulher grande voltou a dizer:
— Estão a bater.
Toda a gente que estava a pilar largou o pilão e correu para a porta. Viram a lebre e abriram:
— O que é que queres?
— Foi a Terra que me mandou. Onde está Deus? Venho pedir-lhe água.
— Senta-te e espera aí.
Fizeram comida e deram-lhe. Quando lhe trouxeram água, bebeu até mais não poder e acabou por desmaiar. Voltou a si e sentou-se à espera. Passado um bocado aparece Deus:
— Então, o que é que queres?
— A Terra mandou-me dizer-te que já sabe que tu és o maior. Para mandares água, por-que as suas famílias estão todas a morrer, os animais estão a morrer, as plantas todas estão a secar. Tem paciência.
Deus disse-lhe então:
— Já lhe tinha dito há muito tempo que sou mais poderoso do que ela. Agora vou dar-te um bule cheio de água. Tu vais e quando chegares perto de casa largas o bule. O bule cai, parte-se e a chuva cai.
Assim fez a lebre; foi até chegar perto de casa e largou o bule.
A chuva começou imediatamente.
As mulheres grandes, depois de tanto tempo sem ver água, com toda aquela sede mal se podiam aguentar de pé, rastejavam para pôr a boca no chão e bebiam assim. Alguns morriam.
Morreram porcos, galinhas, patos... Muitos morreram de excesso, tal era a força da sede.
Assim voltou a haver chuva. Até hoje.

Fábula guineense


I

1. O texto que acabas de ler pertence à tradição oral da Guiné-Bissau, país africano de Língua Portuguesa.
1.1.Identifica e transcreve passagens deste mesmo texto que transmitam aspectos típicos da cultura africana.

2. Qual o significado da expressão «mulher grande», no contexto cultural da Guiné-Bissau?

3. Ao longo desta narrativa, surgem expressões como: «A Terra começou a pensar...»; «A Terra disse...»; etc.
3.1. Identifica a figura de estilo presente nestas passagens.
3.2. Explica em que consiste essa figura de estilo.

II

1. «Desculpe, senhora Terra, mas eu não posso.»
1.1. Identifica a classe e a subclasse da palavra «mas».
1.2. Divide a frase nas orações que a constituem.
1.3. Finalmente, classifica as orações obtidas.

2 « — Quando chegares, bates à porta e dizes...»
2.1. Indica a classe e a subclasse das palavras destacadas.
2.2. Tendo em conta essas palavras, procede à divisão das orações.
2.3. Classifica, agora, essas orações.
2.4. Diz se a frase transcrita é simples ou complexa e porquê.