17.8.07

Coração das cidades

Coração das cidades


A forma como organizamos os nossos espaços exteriores, onde vivemos, por onde circulamos, os locais onde crescemos e nos fazemos adultos, marca a forma como nos desenvolvemos emocionalmente. Por outro lado, eles são bem o espelho do que vai na profundidade da mente dos que os constróem, isto é, reflectem e influenciam a vida emocional das pessoas.
Hoje, quando circulamos pelas grandes cidades do nosso país, não podemos deixar de pensar sobre este assunto (...). O que estamos a fazer? Que qualidade de vida estamos a ter e o que andamos a oferecer aos mais novos? Com o estado de conhecimento actual, o desenvolvimento de novas tecnologias e materiais de construção, magníficos arquitectos na nossa praça, um país pleno de belezas e recursos naturais, não poderíamos desejar melhor? De facto, cresce o número de perturbações de ansiedade e depressivas que mais não são do que uma factura da forma como organizamos o nosso padrão de vida nas grandes cidades. (...)
A primeira ligação fundamental que se pode construir é a de que, para se crescer bem emocional-mente, é necessário tempo e, nesse tempo, um espaço que nos envolva, abrigue, acolha, com limites e fronteiras bem definidas: o nosso espaço familiar, o nosso espaço-casa. Precisamos, pois, de casas em cidades com escala humana, não excessivamente populosas ou distendidas como as actuais fronteiras de cidade região parecem cada vez mais querer delimitar. Para que as pessoas se toquem, se olhem, se conheçam, se liguem afectivamente precisam de estar próximas fisica-mente e, para tal, precisam de tempo real para o fazerem. (...)
Por outro lado, outra ponte possível de estabelecer é a de que, para se crescer bem interiormente, o espaço exterior tem que ser bonito, harmónico, cuidado, emocionalmente investido, como sinal de respeito e carinho por todos os que o habitam. Mas, não raramente, damos conta de demasiados espaços feios, pejados de enormes construções em altura e volume, que se constituem como factores de agressividade para todos. (...)
Depois, há a necessidade de contacto com a natureza, como espaço de sonho, de desejo, de fantasia, de conhecimento. As árvores são ainda poucas e constantemente massacradas em amputações de troncos que constituem autênticas cicatrizes, e é raro uma criança ver crescer flores em canteiros ou sentir o cheiro de relva perto de si. (...)
Ligada a esta ideia, vem também a noção de que as crianças e os adolescentes necessitam de espaços de lazer, de brincadeira, que também se situem fora da esfera habitacional. (...) Os par-ques deveriam englobar recintos para a prática de desportos como o futebol, o basquetebol ou outros, pistas para bicicletas, skates, patins, em locais onde a exploração do mundo extrafamiliar também se pudesse processar. (...)
Por último, a ideia de rua, bairro, comunidade deve existir, para que exista também um sentimento de pertença. "Eu sou daqui", "esta é a minha equipa" ou "este é o meu grupo" são marcos ou sinais de ligações afectivas, que fortalecem a construção de uma mais segura identidade individual e social, e permitem a existência de âncoras, pontos de suporte e amparo social, que ajudam ao equilíbrio de cada um. (...)
Estamos em anos de enorme potencial de mudança e viragem. Nunca como hoje o homem, as comunidades, os países possuem os meios necessários para tornarem as suas vidas e aquilo que as cerca em algo mais equilibrado, tranquilo, belo, feliz. No centro das nossas cidades, deveria cada vez mais existir espaço e tempo para o coração. Para a alma. Para a infância, para a adolescência.

Pedro Strecht, in Público, 19 de Dezembro de 2002 (texto com supressões)




I


1. O texto que acabaste de ler está estruturado em três partes bem definidas.
1.1. Delimita a introdução e resume o seu conteúdo numa frase.
1.2. No desenvolvimento, assinala os conectores que fazem a ligação lógica entre as partes.
1.3. Identifica a conclusão, explicando, por palavras tuas, o seu conteúdo.

2. Existe uma íntima ligação entre "a forma como organizamos os nossos espaços exteriores" e "a forma como nos desenvolvemos emocionalmente".
2.1. Segundo o autor, actualmente existem condições que poderiam permitir ter melhores espaços exteriores. Aponta-as.
2.2. Explica por que razão o tamanho das cidades é também importante para o equilíbrio dos seus habitantes.
2.3. Enumera as características que os espaços exteriores deveriam ter para nos sentirmos melhor.

3. Para além dos factores já enunciados, o autor considera ainda fundamental o contacto com a natureza, a existência de espaços de lazer e o sentimento de pertença a uma determinada comunidade.
3.1. Dá a tua opinião acerca destas "necessidades".
3.2. Aponta uma quarta que te pareça igualmente importante.


II

1. As palavras podem ter diferentes sentidos em função do contexto em que surgem.
1.1. Explica o significado que cada uma das palavras que se seguem apresenta no texto que leste: espelho; factura; amputações; âncoras.
1.2. Utiliza, agora, os mesmos vocábulos em novas frases onde apresentem o seu significado primeiro (denotativo).


III

1. Faz o resumo do texto que acabaste de analisar, respeitando a sua estrutura:
Introdução
Desenvolvimento:
De facto... -> A primeira ligação fundamental... -> Por outro lado... ->
Depois... -» Ligada a esta ideia... -> Por último...
Conclusão