21.2.07

A Cidade que me Fez






SOU LISBOETA. O que é que querem que eu saiba de Lisboa? Ninguém conhece bem a própria nuca. Devo ter ido umas três vezes na vida ao Museu Nacional de Arte Antiga e a única em que fui ao Museu dos Coches já tinha idade para estar morto. Até confundo Carnide e Carnaxide. Fujo das multidões e do social-acidental, dos estádios, dos transportes e das bichas: o que é que eu sei da psicologia colectiva desta tribo tão amável que passa tão bem sem mim? Olho o Tejo e tanto me comovo em êxtase e nostalgias de golfinhos, como faço contas ao valor perdido da pobre nafta que maternalmente lhe aconchega as margens.
Apenas sei, ou intuo, que só me resta uma convicção inútil: a de que há mais Lisboas do que lisboetas e ainda mais do que os nossos visitantes nos roubam na avidez do seu olhar rapace. Pergunto-me até se o turista alguma vez apreende a alma do povo que observa, pois duvido que ela resida no very typical massificado. As regras aproximam, mais do que apartam, as civilizações. Não será então a infracção o que melhor retrata um povo? (...)
A minha indefinível Lisboa não é melhor ou pior do que as alheias. É apenas tão pessoal, tão íntima e até tão mutilada como as demais. É um privativo presépio, com figuras sem rosto e talhadas no barro bruto da minha impartilhável memória. Mas eu aceito-a assim e apego-me a ela com a fanática emoção de que são feitas outras irracionalidades, como o patriotismo mais acrítico: my city, right or wrong. Afinal, cada lisboeta caminha pisando a sombra do outro. O que tanto quer dizer segui-lo como negá-lo. (...)
Há nela muito mais alma do que pedra. É um labirinto de lugar e tempo que me fez, para o bem e para o mal.
Como os outros, caminho pisando sombras que não vejo nem conheço. E, ao fazê-lo, deixo as minhas sombras na calçada para que outrem as pise, seguindo-as e negando-as.
Quero prolongar e reinventar na transgressão o espaço que me foi confiado para fazer e viver a minha liberdade. Quero que se não perca a herança dos homens do deserto fazedores de grandes religiões. Quero conhecer trilhos sortidos na areia, pois só assim posso ir ajudando a fazer-me. Mas só os trilhos. Porque conhecer o deserto é perdê-lo.
Se o homem faz a cidade, a cidade faz o homem. E há Lisboas incumpridas, cidades que em nós se fazem.

NUNO BREDERODE SANTOS,
in Expresso Revista, n° 1493, 9 de Junho de 2001



I


1. O autor do texto é lisboeta e afirma não conhecer bem Lisboa tanto na vertente física como na social.
1.1. Refira um exemplo da ausência de conhecimento do espaço físico.
1.2. Transcreva uma expressão elucidativa do seu fraco conhecimento relativamente ao espaço social.
2. “Olho o Tejo e tanto me comovo em êxtase e nostalgia de golfinhos, como faço contas ao valor perdido da pobre nafta que maternalmente lhe aconchega as margens,”
2.1.Que pretende o autor criticar através do período acima transcrito?
2.2. Indique a figura de estilo presente na expressão sublinhada.
3. Explique o sentido da expressão E um privativo presépio, com figuras sem rosto...
4. «Se o homem faz a cidade, a cidade faz o homem.»
4.1. Esclareça o significado desta afirmação.
5. «Mas eu aceito-a assim e apego-me a ela com a fanática emoção de que são feitas outras irracionalidades...»
5.1. Indique, justificando, a função da linguagem presente no excerto transcrito.


II

1. Divida e classifique as orações das frases seguintes:
a) Quando os turistas visitam Lisboa, não apreendem a alma do povo.
b) O lisboeta pisa sombras que não conhece.
e) É preciso que não se perca a herança dos homens do deserto.

2. Há cidades incumpridas. Os homens ainda não terminaram a sua tarefa.
Transforme as duas frases simples numa complexa através de um articulador (conjunção ou locução causal).

3. Tendo presente as noções de hipónimo e hiperónimo, indique o hipónimo de rio que se encontra no texto.


III

“Estar sozinho é óptimo — estar só não.”
Rosie Rushton

Num texto cuidado e bem estruturado, de cem a duzentas palavras, dê a sua opinião sobre a afirmação transcrita, pensando como seria viver sem amigos e quais as consequências que poderiam daí advir na sua vida quotidiana.