29.12.08

Antes de Começar



(Depois de subir o pano, ouve-se um tambor que se vai afastando. Quando já mal se ouve o tambor, o Boneco levanta-se e vai espreitar ao fundo para fora. Entretanto a Boneca senta-se e está admirada de ver o Boneco a andar. Quando o Boneco volta para o lugar, fica admirado de ver a Boneca sentada a olhar para ele.)

O Boneco - Tu também te mexes como as pessoas?!
A Boneca - (Muito baixinho) Shiu!...
O Boneco - ó agora é que dei por isso!
A Boneca - (Idem) Shiu!...
O Boneco - Todas as noites puxo por ti e tu és sempre uma boneca!!!
A Boneca - (Idem) Shiu!
O Boneco - Eu julgava que de nós dois, era eu só que podia mexer-me!
A Boneca - (Sempre muito baixinho) Eu também julgava que de nós dois, era eu a única que podia mexer-me!
O Boneco - E nunca me sentiste a puxar por ti, todas as noites?!
A Boneca - (Idem) É que eu julgava que era o Homem que puxava por mim!
O Boneco - E tu? Puxaste por mim alguma vez?
A Boneca - (Idem) Nunca... nunca experimentei puxar por ti... Eu tinha pena, se ao puxar por ti tu não te mexesses. Por isso nunca experimentei!...
O Boneco - Pois eu, todas as noites, quando o tambor do Homem já vai muito longe, levanto-me e vou espreitar para fora...
A Boneca - Nunca te vi assim!... Às vezes, sentia puxarem por mim mas julgava que era o Homem..., e deixava-me estar boneca...
O Boneco - Se eu soubesse que tu eras como eu!
A Boneca - Se eu soubesse que também tu eras assim!
O Boneco - A culpa é tua! Eu bem puxei por ti, todas as noites!
A Boneca - Que pena! E eu que não adivinhava que eras tu! Olha, Boneco, perdoas? Tu não imaginas como eu sou tímida!...
O Boneco - É asneira!...
A Boneca - Schiu!... Não fales tão alto!
O Boneco - Não está ninguém lá fora! Eu nunca me levanto sem ter pensado primeiro se está alguém lá fora!... Só depois de ter pensado bem é que eu me levanto. E até hoje, ainda ninguém deu por nada... nem tu!
A Boneca - É verdade, nem eu...
O Boneco - Tu és uma tímida!
A Boneca - Pois sou...
O Boneco - E não há razão... pois se temos a certeza de que não está ninguém a ver! Faz algum mal?
A Boneca - Mas se vissem?
O Boneco - Não podem ver!
A Boneca - Tu tens a certeza de que não te podes enganar?
O Boneco - As pessoas é que se enganam! Nós os bonecos, nunca nos enganamos!!!...

Almada Negreiros, Antes de Começar


I

Das hipóteses apresentadas (A, B, C e D), assinala a correcta.

1. O texto transcrito faz parte do género dramático porque:
a) a narração está presente e é indispensável.
b) se destina somente a ser lido.
c) se destina, em princípio, a ser representado.
d) as personagens e a descrição são indispensáveis.

2. Nesta peça, a didascália inicial é um texto secundário que nos dá informações sobre:
a) a movimentação e atitudes das personagens.
b) a iluminação e a música
c) o cenário e o guarda-roupa.
d) a música e o guarda-roupa.

3. A acção desta peça decorre:
a) nos bastidores.
b) numa casa.
c) num palco.
d) na rua.

4. Em cena, duas personagens descobrem maravilhadas que:
a) são actores de teatro.
b) são pessoas reais.
c) estão apaixonadas.
d) podem comunicar.

5. O Boneco não tinha descoberto há mais tempo que a sua companheira se mexia e falava porque:
a) nunca tinha tentado comunicar com ela.
b) embora tivesse tentado comunicar, ela nunca respondera.
c) tinha medo que o Homem o ouvisse.
d) não desejava que tal acontecesse.

6. A Boneca não tinha feito a mesma descoberta em relação ao amigo porque:
a) nunca tinha tentado falar com ele.
b) sempre que tentara comunicar, não obtivera resposta.
c) receava obter uma resposta.
d) desprezava a sua presença.

7. O Boneco tentou "puxar" pela Boneca e ela não reagiu porque:
a) na realidade, ela não se mexia.
b) julgava que era o Homem que o fazia.
c) não queria que ele soubesse que ela se mexia.
d) gostava de brincar com ele.

8. As falas "Se eu soubesse que tu eras como eu!" e "Se eu soubesse que também tu eras assim!" indicam que ambas as personagens se sentem:
a) arrependidas por terem começado a falar.
b) inferiores em relação ao Homem.
c) felizes por se terem conhecido.
d) com pena de não o terem descoberto há mais tempo.

9. Sente-se que sendo ambas bonecos, as suas falas revelam:
a) características psicológicas muito idênticas.
b) traços psicológicos que as distinguem.
c) características físicas muito semelhantes.
d) traços físicos muito distintos.

10. A(s) forma(s) de enunciação presente(s) neste excerto da peça é/são:
a) o monólogo.
b) o diálogo.
c) o diálogo e o monólogo.
d) o aparte.

11. O uso frequente das reticências marca interrupções no diálogo exprimindo:
a) ironia.
b) hesitação.
c) surpresa.
d) dúvida.

12. A parte da peça transcrita corresponde:
a) ao conflito e desenlace.
b) ao desenlace.
c) à exposição e conflito.
d) à exposição.

13. "Shiu...!" é:
a) um advérbio.
b) uma interjeição.
c) uma preposição.
d) uma conjunção.

14. A frase "Tu também te mexes como as pessoas?!" é simultaneamente do tipo:
a) interrogativo e exclamativo.
b) interrogativo e imperativo.
c) imperativo e exclamativo.
d) declarativo e interrogativo.

15. Na frase "Tu tens a certeza de que não te podes enganar?", o pronome te está colocado antes do verbo porque se trata de uma frase:
a) negativa.
b) exclamativa.
c) interrogativa.
d) enfática.

16. Na frase anterior, o pronome te desempenha a função sintáctica de:
a) complemento directo.
b) sujeito.
c) complemento indirecto.
d) complemento determinativo.

17. A fala "Nunca te vi assim!...", no discurso indirecto, fica:
a) A Boneca disse que nunca o tinha visto assim.
b) A Boneca disse que nunca te vira assim.
c) A Boneca perguntou se já o tinha visto assim.
d) A Boneca perguntou quando é que o veria assim.

18. No texto há vários exemplos de complementos circunstanciais de tempo, como por exemplo:
a) "nunca"; "a única".
b) "até hoje"; "alguma vez".
c) "lá fora"; "só agora".
d) "Todas as noites"; "até hoje".

19. Na frase "Eu julgava que era o Homem!", a oração destacada a itálico é uma oração subor-dinada:
a) completiva.
b) condicional.
c) causal.
d) final.

20. A oração destacada na questão anterior desempenha a função de:
a) sujeito.
b) predicativo do sujeito.
c) complemento directo.
d) complemento indirecto.


II

1. Elabora uma síntese do texto lido.
2 Continua o texto dramático, acrescentando-lhe as personagens que quiseres e criando um desfe-cho a teu gosto. Sugerimos-te que leias a peça na íntegra e a compares com o teu texto.
3 Imagina e escreve a página do Diário da Boneca relativa ao dia em que começou a falar com o Boneco.