7.11.08

Meu senhor arcebispo, and'eu escomungado

Meu senhor arcebispo, and'eu escomungado,
porque fiz lealdade; enganou-m'i o pecado.
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Se traiçon fezesse, nunca vo-lo diria;
mais, pois fiz lealdade, vel por Sancta Maria,
soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per mia malaventura tive um castelo en Sousa
e dei-o a seu don', e tenho que fiz gran cousa:
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.

Per meus negros pecados, tive un castelo forte
e dei-o a seu don', e ei medo da morte.
Soltade-m', ai, senhor,
e jurarei, mandado, que seja traedor.


Diego Pezelho, CV 1124, CBN 1592



I

1. Identifique o emissor e o receptor da cantiga que acabou de ler.

2. Que papel desempenha o arcebispo na questão levantada pelo trovador?

3. O poeta identifica-se com o alcaide do castelo? Porquê?

4. Que causas lavaram à excomunhão do alcaide?

5. Classifique esta cantiga quanto ao género em que está inserida, justificando.

6. Comente o valor expressivo da ironia, retirando dois exemplos do texto.


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de António José Saraiva e Óscar Lopes:

«É indiferente que o autor (das cantigas de escárnio e maldizer) seja um jogral vilão, um fidalgo, um clérigo ou mesmo um rei: todos fraternizam na mesma convivência e se ocupam dos mesmos mexericos, na mesma linguagem, em que o termo obsceno nos surpreende pela naturalidade (e actualidade) do seu uso.»