5.11.08

Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um vôo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado ?s luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibraç?es, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me ? memória idílios imortais.

Diziam-me que tu, no flórido passado,
Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas,
Aquele teu olhar moroso e delicado,
Que fala de langor e de emoç?es mimosas;

E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura,
Que n?o me desgostou nem uma vez sequer,
Eu n?o sabia haurir do cálix da ventura
O néctar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quase irm?s do vento com as flores
E a mole exalação das várzeas recendentes.

(…)

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais!

(…)

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I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. Determine o tema/assunto e relacione-o com o título.
1.1. Faça salientar o valor aspectual de alguns elementos linguísticos interligados com o tema.

2. Descubra os três momentos vividos pelo sujeito poético relacionados também com a amada.

3. Associe as várias imagens com o "jardinzinho agreste" (v. 1) e, por elas, explicite a experiência idílica do amor.

4. Justifique a evolução do percurso eu-tu-nós.

5. Refira as acusações que contribuem para a autocaracterização do sujeito poético.


II

Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a citação a seguir transcrita, com base em leituras sobre a poesia de Cesário Verde e sobre o contexto literário que o envolve.
«A organização mais característica dos seus poemas [Cesário Verde] é precisamente a narrativa de passeios aparentemente casuais em que um observador vai registando o ambiente mutável e miscelâneo que se lhe depara.»

Hélder Macedo, Nós - Uma leitura de Cesário Verde


III

Resuma o excerto seguinte, constituído por trezentas e setenta e quatro palavras, num texto de cento e quinze a cento e trinta e cinco palavras.


Cesário Verde e o mito de Anteu

esperar de aqui uma sábia pesquisa sobre a presença desse gigante nos versos de Cesário: em ter¬mos de expressão discursiva, o seu nome nem sequer é mencionado, e nada permite pensar que algum dia o poeta se tenha identificado conscientemente com Há títulos que são, ao mesmo tempo, demasiado explícitos e demasiado enganadores. Parece-me o caso do que escolhi para esta breve intervenção: Cesário Verde e o mito de Anteu. Demasiado explícito, com efeito, porque quem se lembrar da figura mitológica e tiver praticado um pouco c poeta, adivinhará de antemão onde eu quero chegar; e demasiado enganador, porque será vãoAnteu. O adjectivo «hercúleo», que aparece mais de uma vez nos seus textos (para caracterizar as varinas, por exemplo), nada tem a ver com o desfecho da lenda, em que Hércules vence Anteu, soerguendo-o da terra e impedindo-o assim de recobrar as forças. É sabido, de resto, que as marcas eruditas escasseiam na obra de Cesário Verde, cuja cultura é sobretudo tributária de informação jornalística ou de tertúlias. E quando por acaso emergem, o poeta não se coíbe de, metaforicamente ou não, extrapolar ou mesmo inverter-lhes o sentido. As «áridas Messalinas» protagonizam o amor venal, e, ao arrepio da tradição bíblica, é o contacto com os cabelos da amada que vai dar ao amante «a força dum Sansão». É, pois, num outro registo que deveremos documentar a aproximação, e provar que não é de todo descabida.
A História do filho de Gaia, a quem bastava, para cobrar novo alento, tocar no solo, aponta para três sememas fundamentais, evidenciados nas respectivas funções narrativas: a exaustão dum vigor com-bativo inicial, o contacto com a terra-mãe e a consequente recuperação das forças. Ora os três motivos figuram inequivocamente no Livro de Cesário Verde, que os endossa subjectivamente na primeira pessoa do singular. Não vou levantar aqui a ociosa questão de saber se o eu, que tão insistentemente comparece nos enunciados poéticos desse volume, coincide ou não com o ser de carne e osso que os assinou. Salvo melhor opinião, e neste caso pelo menos, esse eu textual não é o dum ser de papel. O poeta interioriza o que sente, e é com os cinco sentidos dele e não de outrem que o faz.


Andrée Rocha, Temas de Literatura Portuguesa,
Ed. do Autor (pp. 125-126)