21.11.08

Crónica de D. João I - Cap. 11




(...) Soarom as vozes do arruido pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o i escusar-evitar Meestre; e assi como viúva que rei nom tinha, e como se lhe este ficara em logo de minguava-(aliava marido, se moveram iodos com mão armada, correndo a pressa pêra u deziam que se britassem- arrombassem esto fazia, por lhe darem vida e escusar' morte. Alvoro Paaez nom quedava d'ir pêra 'aleivosa -adúltera e perversa (traidor = ala, braadando a todos: Conde Andeiro; aleivosa = Leonor
- Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê! Teles) A geme começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. * doestos -injúrias Nom cabiam pelas ruas principaes, e atravessavom legares escusos, desejando cada uíi de seer o primeiro: e preguntando uns aos outros quem matava o Meestre, nom minguava2 quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da Rainha.
E per voontade de Deos todos feilos duïï coraçom com (alento de o vingar, como forom aas porias do Paaço que eram já çarradas, ante que chegassem, com espantosas palavras começarom de dizer:
- U matom o Meestre? que é do Meestre? quem çarrou estas portas?
Ali eram ouvidos braados de desvairadas maneiras. Taes i havia que certificavom que o Meestre era mono, pois as porias estavom çarradas, dizendo que as britassem pêra entrar dentro, e veeriam que era do Meesire, ou que cousa era aquela.
Deles braadavom por lenha, e que veesse lume pêra poerem fogo aos Paaços, e queimar o traidor e a aleivosa4. Outros se aficavom pedindo escaadas pêra sobir acima, pêra veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arruido atam grande que se nom entendiam uns com os outros, nem detemiinavom neüa cousa. E nom soomente era isto aã porta dos Paaços, mas ainda arredor deles per u homées e mulheres podiam estar. Uas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija pêra acender o fogo cuidando queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muitos doestoss contra a Rainha.
De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo. e o Conde Joam Fernandez morto; mas isto nom queria neuu creer, dizendo:
- Pois se vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos.
Entom os do Meestre veendo iam grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disserom que fosse sua mercee de se mostrar aaquelas gentes, doutra guisa poderiam quebrar as portas, ou lhe poer o fogo, e entrando assi dentro per força, nom lhe poderiam depois tolher de fazer O que quisessem.
(...) E sem dúvida se eles entrarem deniro, nom se escusara a Rainha de morte, e fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre estava aã janela, e todos oolhavom contra ele dizendo:
- Ó Senhor! como vos quiseram matar per treiçom, beento seja Deos que vos guaru desse treedor! Viinde-vos, dai ao demo esses Paaços, nom sejaes aí mais. E em dizendo esto, muitos choravom com prazer de o veer vivo.

Fernão Lopes, Crónica de D. João I, cap. 11



I

Depois de uma leitura cuidada do excerto da Crónica de D. João l, desenvolva os seguintes tópicos de análise:
«A sequência discursiva.
«As marcas de emotividade.
«As reacções do povo e o amor patriótico que revelam.
• As sensações visuais e auditivas da descrição.
«A linguagem e o estilo.


II

Num breve apontamento, não excedendo o limite de 10 linhas, mostre como Fernão Lopes tentou relatar objectivamente a verdade, embora nem sempre o tenha conseguido.


III

Comente a seguinte afirmação de Alexandre Herculano:
"Fernão Lopes adivinhou os princípios da moderna história: a vida dos tempos de que escreveu transmitiu-a à posteridade, e não, como outros fizeram, somente um esqueleto de sucessos políticos e de nomes célebres. Nas crónicas de Fernão Lopes não há só história: há poesia e drama; há a Idade Média com sua fé, seu entusiasmo ou amor de glória."