5.11.08

Anjo és


Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve a mulher,
Jamais o há-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha razão insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
Não vejo a c'roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o sôfrego pudor
Vela os mistérios d'amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não tem. – Que anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeová ou Belzebu?

Não respondes – e em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!...
Isto que me cai no peito
Que foi?... Lágrima? – Escaldou-me...
Queima, abrasa, ulcera... Dou-me,
Dou-me a ti, anjo maldito,
Que este ardor que me devora
É já fogo de precito,
Fogo eterno, que em má hora
Trouxeste de lá... De donde?
Em que mistérios se esconde
Teu fatal, estranho ser!
Anjo és tu ou és mulher?

Almeida Garrett, Folhas Caídas, 1853



I

1. Explicite o significado da expressão «Anjo és tu, não és mulher».

2. O sujeito poético tem a certeza de que a sua amada é um anjo? Justifique a sua resposta.

3. Indique os atributos da mulher anjo.

4. Comente os seguintes versos: «Em nome de quem vieste? / Paz ou guerra me trouxeste / De Jeová ou Belzebu?».

5. Porque é que, a dada altura, o poeta chama à mulher amada «anjo maldito»?

6. Identifique dois recursos de estilo presentes no poema e justifique o seu valor expressivo.

7. Faça a análise da estrutura externa do poema.

8. Explique a formação das seguintes palavras: Anuviada e ondear.


II

Tendo em conta a corrente literária em que se insere Almeida Garrett, exponha, num máximo de quinze linhas, as contradições vividas pelo poeta, relacionando-as com as contradições do homem actual.