4.10.08

Maria Peres, a nossa cruzada


Maria Peres, a nossa cruzada
quando veo da terra d'Ultramar,
assi veo de pardom carregada
que se nom podia com ele merger;
mais furtam-lh'o, cada u vai maer,
e do perdom já nom lhi ficou nada.

E o perdom é cousa mui preçada
e que se devia muit'a guardar;
mais ela nom á maeta' ferrada
em que o guarde, nena pod'aver,
ca pois o cadead'em foi perder,
sempr'e a maeta andou descadeada.

Tal maeta como sera guardada,
pois rapazes albergam no logar.
que nom aja seer mui transtornada?
Ca, o logar u eles am poder,
nom á pardom que s'i possa asconder,
assi sabem trastornar a pousada.

E outra cousa vos quero dizer
atal pardom bem se dev' a perder,
ca muito foi cousa mal gaa(nha)da.


Pêro da Ponte, CBN 1642, CV 1176



I

1. Identifique o objectivo da sátira da cantiga que acabou de ler.

2. Como caracteriza o trovador a soldadeira Maria Peres?

3. Explique a alusão do trovador à «nossa cruzada».

4. Comente o significado da finda.

5. Que recursos de estilo utiliza o poeta na elaboração da sátira? Dê dois exemplos retirados do texto.

6. Diga o que entende por «Ultramar» e «maeta».


II

Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Rodrigues Lapa:

«Na cantiga de escárnio e de maldizer vazava a brutalidade da sua natureza, acostumada a chamar às coisas por seus próprios nomes. Daí o realismo e por vezes a obscenidade dessa poesia satírica, que é um documento de primeira ordem para o conhecimento dos costumes da Idade Média.»