27.10.08

D. Dinis

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve o silêncio murmuro consigo
É o rumor dos pinhais.que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

Fernando Pessoa, Mensagem, Ed. Ática





I

Depois de ler o poema com atenção, responda às questões seguintes:

1. Mencione os elementos textuais que caracterizam a figura histórica de D. Dinis.
1.1. Justifique a sua escolha.

2. Imbuído de espírito épico, o sujeito poético reflecte a posteriori sobre a empresa dos Descobrimentos.
2.1. Refira os elementos que, na perspectiva daquele, evidenciam o destino mítico de Portugal.
2.2. Justifique com duas figuras de estilo, cujo significado remeta para o cumprimento desse destino.

3. Comente a comparação em "É o rumor dos pinhais que, como um trigo/De Império [...]" (w. 4-5), enquadrando-a no contexto global do poema.
4. Explique o sentido metafórico-antitético dos binómios:
- arroio/oceano (w. 6 e 7);
- presente/futuro (v. 9).

5. Escreva, a partir de pinhal, uma família de palavras compreendendo, pelo menos, um nome, um adjectivo, um advérbio e um verbo.


II

Numa entrevista ao Jornal do Comércio e das Colónias (Junho de 1926), Fernando Pessoa afirmou:
«Não podendo Portugal ser potência militar, nem económica, nem cultural, pode contudo vir a ser uma potência criadora de civilização, pela construção do Quinto Império de que o sebastianismo seria a sua encarnação.»
Redija um texto bem estruturado, de setenta a cem palavras, comentando a afirmação de Fernando Pes-soa, com base em leituras sobre o livro Mensagem e o contexto literário que o envolve.


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e oitenta e três palavras, num texto de cento e dezoito a cento e trinta e oito palavras.


A Mensagem (1934-1935)

Sim, de empenhamento e de missão, de solitude e de voluntária ascese foi o melhor da vida de Fernando Pessoa. Uma entrega total, que não quis sofrer partilhas, cedências, diminuições de energia. A mesma razão do celibato que a Igreja ainda mantém para o seu sacerdócio, e que o poeta cumpriu, embora as suas «obediências» fossem outras...
«Emissário de um Rei desconhecido», escreveu no famoso poema, «Eu cumpro informes instru¬ções de além...» «Emissário», «missionário» e «asceta», Fernando Pessoa assumiu uma iniciação a que, como vimos, se refere em diversas ocasiões, cujos Mestres podemos considerar terem sido todos os grandes profetas, fundadores de religiões, filósofos ou iluminados, que escreveram e viveram no curso dos séculos esse Evangelho Eterno onde se compreendem e todavia se trans¬cendem os Sistemas Filosóficos, as Igrejas e as Religiões.
Tal a crença e tal o compromisso vital de Fernando Pessoa, ao transitar dos anos da juventude para os da maturidade.
E quando, destinalmente, a poucos meses de morrer, publicou Mensagem, obedecia ainda a esses miste-riosos Mestres desconhecidos, cumpria ainda uma missão que largamente o ultrapas¬sava como homem social e existencial.
Foram exaustivamente dissecadas as circunstâncias em que recebeu, pelo livro, um prémio literário do Secretariado da Propaganda Nacional, mas não aparentemente o primeiro prémio. Sabe-se, porque o próprio Fernando Pessoa o disse em carta a Adolfo Casais Monteiro, que não concorreu «com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior», mas fundamentalmente por duas razões, a primeira humana e a segunda da ordem do transcendente. Quanto àquela, o poeta invoca o facto de essa faceta da sua personalidade não ter sido ainda suficientemente manifestada nas suas colaborações em revistas; quanto a esta, aponta a conveniência de tal faceta aparecer precisamente agora: «Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subsconsciente nacional.» E acrescenta: «O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, em Esquadria e Compasso, pelo grande Arquitecto...»
Palavras que, sendo obscuras decerto para muitos, não deixam por isso de ser claras quanto às convicções do poeta. Convicções perante as quais o recebimento ou não recebimento do prémio seria obviamente uma questão secundária. E assim foi.

António Quadros, Fernando Pessoa: Vida, personalidade e génio,
Publ. Dom Quixote (pp. 51-52)