18.10.08

Canto IV, est.84-91

84
«E já no porto da ínclita Ulisseia,
Cum alvoroço nobre e cum desejo
(Onde o licor mistura e branca areia
Co salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes estão; e não refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marítima e a de Marte
Estão pera seguir-me a toda a parte,

85
«Pelas praias vestidos os soldados
De várias cores vêm e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Pera buscar do mundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeiam os aéreos estandartes;
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.

86
«Despois de aparelhados, desta sorte,
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhámos a alma pera a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte
Sustenta só co a vista veneranda,
Implorámos favor que nos guiasse
E que nossos começos aspirasse.

87
«Partimo-nos assi do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

88
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saüdosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.

89
«Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

90
«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, o filho caro,
A fazer o funéreo encerramento
Onde sejas de pexes mantimento?»

91
«Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?»

Canto IV


I

1. Este episódio corresponde ao início da viagem de Vasco da Gama à Índia. Como justificas que esteja colocado só no final do Canto IV?

2. Em que consistem os preparativos que os marinheiros fazem para a viagem?

3. Repara no início da estrofe D. Qual é o espaço onde decorre a acção aí narrada?

4. Identifica a figura de estilo utilizada para referenciar esse espaço, e explica em que consiste.

5. As personagens intervenientes formam dois grupos: aqueles que ficam e aqueles que partem. Resume as atitudes e sentimentos de ambos.

6. Que sente o narrador no momento em que conta este episódio?

7. Classifica morfologicamente as palavras a negro no texto.

8. Nomeia e descreve os processos fonéticos presentes:

a) FLAMA > CHAMA
b) EPISCOPU > BISPO
c) DAT > DÁ
d) NOSTRU > NOSSO

9. Divide e classifica as orações:

a) Parece-me que estás com sono.
b) Embora estivesse calor, não bebeu nem pediu sombra.
c) O livro que me deste é excelente.