30.10.08

15 Histórias de Natal

A noite sagrada



Era dia de Natal: toda a gente tinha ido para a Igreja, menos a avó e eu: julgo que estávamos os dois sozinhos em casa; não tínhamos podido acompanhar os outros, eu porque era muito novo, ela porque era muito velha, e ambos nos sentíamos tristes por não poder assistir à Missa do Galo nem ver as velas acesas.
E, como estávamos para ali sentados e solitários, a avó principiou a contar:
- Era uma vez um homem... - disse ela - que caminhava no meio da noite escura à procura de lume. Ia de porta em porta, batia a todas elas e dizia:
« Amigos, ajudai-me ! A minha mulher acaba de ter um menino, e preciso de lume para os aquecer, a ela e à criancinha. »
Mas a escuridão era profunda; todos dormiam; ninguém lhe respondeu. O homem prosseguiu o seu caminho. De súbito avistou uma luz que brilhava ao longe. Dirigiu-se para lá e viu que era uma fogueira acesa ao ar livre. Em volta dormiam carneiros brancos, e um velho pastor, agachado, guardava o rebanho.
Quando o homem que andava à procura de lume se aproximou dos carneiros, viu três grandes cães adormecidos ao pé do pastor. Acordaram os três e abriram as bocarras como se quisessem ladrar; mas nenhum som lhes saiu das gargantas. O homem reparou em que o pelo se lhes ouriçava, que os dentes afiados luziam muito brancos ao clarão da fogueira. E os três se atiraram a ele. Um ferrou-lhe os dentes numa perna, outro numa das mãos, o terceiro no pescoço; mas as queixadas e os dentes recusaram-se a morder, e o homem não sofreu qualquer ferimento.
Quis então aproximar-se da fogueira e levar o lume de que tinha necessidade, mas eram tantos os car-neiros, e deitados tão juntos, que não podia passar pelo meio deles. E teve de lhes passar por cima. Mas nenhum dos animais acordou ou se mexeu sequer.
Até àquele momento, eu escutara a minha avó sem a interromper, mas não me contive mais.
- Porquê, avó ? - Perguntei.
- Daqui a pouco o saberás.
E a avó continuou:
- Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor ergueu a cabeça. Era um velho carrancudo, mau, duro para com toda a gente. Assim que viu o desconhecido, agarrou no seu longo cajado pontiagudo e atirou-lhe com ele. O cajado voou direito ao homem, mas no instante em que ia atingi-lo desviou-se e foi cravar-se no chão.
Então o homem aproximou-se do pastor e disse:
« Amigo, ajuda-me e deixa-me levar um pouco de lume. A minha mulher acaba de ter um menino e preciso de os aquecer, a ela e à criancinha. »
O pastor teve vontade de recusar, mas lembrou-se dos cães que não tinham ladrado, dos carneiros que não tinham fugido, do cajado que não tinha querido bater, e sentiu um vago receio.
« Leva aquilo de que precisares », disse ele ao desconhecido.
A fogueira estava quase a apagar-se. Não havia nem ramos a arder, nem achas. Só um monte de brasas, mas o homem não tinha uma pá, nem nada onde pudesse levar as brasas ardentes. E ao ver isso, o pastor repetiu:
« Leva tudo o que quiseres. »
E alegrava-se com a ideia de que o homem não podia levar coisa alguma. Mas o homem curvou-se, afastou as cinzas, e com as mãos tirou algumas brasas vermelhas que deitou numa dobra do manto. E as brasas não lhe queimaram as mãos nem as roupas. Levou-as como se fossem maçãs ou avelãs.
Pela terceira vez a narradora foi interrompida:
- Avó, porque foi que os carvões não quiseram queimar o homem ?
- Já vais ver... - disse a avó. E continuou:
- Quando o pastor, que era um homem carrancudo e duro, viu aquelas coisas, começou a perguntar a si mesmo:
« Mas que noite será esta em que os cães não mordem, os carneiros não se espantam, em que o cajado não fere, em que o lume não queima ? » Chamou o desconhecido e perguntou-lhe:
« Que noite é esta em que até as coisas se mostram compadecidas ? »
O homem respondeu:
« Se tu não compreendes por ti próprio, não te posso dizer. »
E foi-se embora apressado, para aquecer a mulher e o menino.
Mas o pastor pensou que não devia perder de vista aquele homem até compreender o significado de tudo aquilo.
Levantou-se e seguiu-o.
Em breve o pastor viu que o homem nem sequer tinha uma choupana onde morar: a mulher e o menino estavam deitados ao fundo de uma gruta da montanha cujas paredes eram frias e nuas.
Pensou que o pobre inocentinho corria o risco de morrer de frio, e apesar de ser um homem duro, comoveu-se com semelhante miséria. Desenfiou o alforge do ombro, tirou dele uma pele de carneiro branca e macia e estendeu-a ao desconhecido, dizendo-lhe que deitasse o menino em cima dela.
No mesmo instante em que dava esta prova de bondade e de caridade, abriram-se-lhe os olhos; e viu aquilo que antes não fora capaz de ver, e compreendeu aquilo que não tinha podido compreender.
Viu em redor de si um círculo de anjos com asas de prata. Cada um deles tinha na mão um instrumento de música e todos cantavam em vozes claras e sonoras que naquela noite nascera o Salvador, que libertaria os homens dos seus pecados.
E compreendeu então que nessa noite as próprias coisas estavam tão cheias de alegria, que não queriam fazer mal a ninguém.
E não era apenas na gruta que havia anjos: via-os por toda a parte, sentados na encosta da montanha, ou a voarem pelo céu. Vinham também em grupos pelo caminho fora, e todos paravam para contemplar o Menino.
Quando a avó chegou àquele ponto da história, suspirou e disse:
- Mas aquilo que o pastor viu também nós podemos ver. Todos os anos, na noite de Natal, os anjos voam pelo céu, e só de nós depende vê-los ou não.
Depois, pousou-me a mão sobre a cabeça e acrescentou:
- Lembra-te disto, porque é tão verdade como estares a ver-me e eu estar a ver-te. O mais importante não são as iluminações nem as luzes. Não precisamos do Sol nem da Lua, mas apenas de olhos que saibam abrir-se ao esplendor de Deus.

Selma Lagerlof, in 15 Histórias de Natal
(adaptado)


Notas:
bocarras (vem de boca);
ouriçava (vem de ouriço);
luziam (vem de luz);
queixadas (vem de queixo);
carrancudo (mal encarado);
vago (leve, pequeno);
compadecidas (com pena);
choupana (cabana);
alforge (saco de trazer ao ombro);
sonoras (vem de som);
esplendor (brilho intenso).



I

1. No texto que acabaste de ler estão presentes duas narrativas (uma está metida dentro da outra). Distingue-as.

2. A avó é narrador e é personagem; devia, portanto, ser narrador participante. Mas não é. Porquê ?

3. É mais difícil fazer o retrato das personagens quando elas vão mudando. É o que acontece com o pastor deste texto.
a) Caracteriza-o, descrevendo, a partir da situação inicial, as alterações que sucedem no seu comportamento.
b) Diz qual foi o momento no qual se deu a grande mudança no comportamento desta personagem e explica qual foi a causa dessa transformação.

4. Identifica, justificando, os recursos de estilo presentes em cada uma das frases seguintes:
a) Os olhos dela brilhavam como dois sóis.
b) A D. Cecília tinha criado raízes na aldeia e já não queria voltar para Lisboa.
c) Aquelas nuvens escuras tinham mentido, porque afinal não choveu.
d) Aquela ideia foi a semente de uma grande mudança no seu modo de vida.

5. Diz a regra que motiva a acentuação gráfica de cada uma das palavras seguintes:
a) amável
b) obténs
c) saúde

6. Classifica morfologicamente (classe e subclasse) as palavras realçadas nas frases seguintes:
- Meu rei, desejo ser armado cavaleiro. A minha alegria e a vossa serão grandes quando isso acontecer.