30.9.08

Viagens na Minha Terra

As sobrancelhas, quase pretas também, desenhavam-se numa curva de extrema pureza; e as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura da face.
Os olhos porém – singular capricho da natureza, que no meio de toda esta harmonia quis lançar uma nota de admirável discordância! Como poderoso e ousado maestro que, no meio das frases mais clássicas e deduzidas da sua composição, atira de repente com um som agudo e estrídulo que ninguém espera e que parece lançar a anarquia no meio do ritmo musical... os diletantes arrepiam-se, os professores benzem-se; mas aqueles cujos ouvidos lhes levam ao coração a música, e não à cabeça, esses estremecem de admiração e entusiasmo... Os olhos de Joaninha eram verdes... não daquele verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.
São os mais raros e os mais fascinantes olhos que há.
Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que nela nasci e nela espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a herética pravidade do olho azul, sofri o que é muito bem feito que sofra todo o renegado... eu firme e inabalável, hoje mais que nunca, nos meus princípios, sinceramente persuadido que fora deles não há salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma única vez que vi dos tais olhos verdes, fiquei alucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catolicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha fé vacilante na contemplação das eternas verdades, que só e ùnicamente se encontram aonde está toda a fé e toda a crença... nuns olhos sincera e lealmente pretos.
Joaninha porém tinha os olhos verdes; e o efeito desta rara feição, naquela fisionomia à primeira vista tão discordante, era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, alucinava, depois fazia uma sensação inexplicável e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: por fim pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e toda a inteligência e toda a vontade eram absorvidas.
Resta só acrescentar – e fica o retrato completo, um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em coturno. O pé breve e estreito, o que se adivinhava da perna admirável.


Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra



I

1. Realce as características dominantes da personagem descrita no excerto que acabou de ler.

2. Como interpreta a importância que o autor dá aos olhos da personagem?

3. De que modo é que os olhos da personagem podem representar a dicotomia clássico / romântico? Justifique a sua resposta.

4. Identificar os sentimentos contraditórios que os olhos da personagem incutiam em quem os visse.

5. Comente a seguinte frase: «Senti abalar-se pelos fundamentos o meu catolicismo».

6. Faça um breve comentário estilístico ao texto, realçando as metáforas e as comparações de que o autor se serviu para descrever os olhos da personagem.

7. Atente na seguinte frase: «Os olhos de Joaninha eram verdes».

7.1. Faça a análise sintáctica da frase.

7.2. Reescreva a frase colocando o verbo no modo condicional.


II

Num texto cuidado, relacione o retrato físico e psicológico de Joaninha com o retrato que o autor faz do Vale de Santarém.