21.9.08

Mestre Finezas



Agora entro, sento-me de perna cruzada, puxo um cigarro, e à pergunta de sempre respondo soprando o fumo:
— Só a barba.
Ora é de há pouco este meu à-vontade diante de mestre Ilídio Finezas.
Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saía de casa, rente á parede, sentindo que aquilo era pior que ir para a escola.
Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
Como o tempo corria devagar!
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer--me, não podia bocejar sequer. — «Está quieto, menino» — repetia mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: — «As¬sim, quieto!» — Os pedacitos de cabelo espalhados pelo pescoço, pela ca-ra, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
E eu — sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que todo o corpo me doía — era para ali uma pobre criatura indefesa nas mãos de mestre Ilídio Finezas.
Nesse tempo tinha-lhe medo. Medo e admiração. O medo resultava do que acabo de contar. A admiração vinha das récitas dos amadores dramáti¬cos da vila.
Era pelo Inverno. Jantávamos à pressa e nessas noites minha mãe penteava-me com cuidado. Cal-çava uns sapatos rebrilhantes e umas peúgas de seda que me enregelavam os pés. Saíamos. E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila, eu conhecia pela voz famílias que caminhavam na nossa freme e outras que vinham para trás. Depois, ao entrar no teatro, sentia-me perplexo no meio de tanta luz e gente silenciosa. Mas todos pareciam corados de satisfação.
Daí a pouco, entrava num mundo diferente. Que coisas estranhas aconte¬ciam! Ninguém ali falava como eu ouvia cá fora. E mesmo quando calados tinham outro aspecto; constantemente a mexerem os braços. Mestre Finezas era o que mais se destacava. E nunca, que me recorde, o pano desceu, no i? último acto, com mestre Finezas ainda vivo. Quase sempre morria quando a cortina principiava a descer e, na plateia, as senhoras soluçavam alto.
Aquelas desgraças aconteciam-lhe porque era justo e tomava, de gosto, o partido dos fracos. E, para que os fracos vencessem, mestre Finezas não tinha medo de nada nem de ninguém. Heroicamente, de peito aberto e com grandes falas ia ao encontro da morte.

Manuel da Fonseca


I

1. Localiza a acção ilustrando as respostas com expressões do texto:
a) no tempo;
b) no espaço;

2. O narrador recorda as suas idas ao barbeiro quando era criança.
a) Que motivos teria ele para considerar tal acontecimento "pior que ir para a escola"?
b) Identifica as características físicas do Mestre Finezas.
c) Justifica a seguinte afirmação: o retrato físico do barbeiro é feito através de um processo de caracterização directa.

3. Além de barbeiro, Mestre Finezas era também actor e a ida ao teatro revestia-se de uma solenidade especial. Indica de que forma se traduzia essa solenidade a nível:
a) do vestuário do rapazinho;
b) das atitudes da mãe;
c) das reacções das outras pessoas.

4. Por que razão ficava o narrador impressionado ao entrar no teatro?

5. Mestre Finezas, como actor, era digno de admiração. Porquê?

6. Classifica o narrador, justificando com expressões do texto, quanto à:
a) ciência;
b) presença;
c) posição;

7. "E, no negrume da noite que afogava as ruas da vila..."
Identifica a figura de estilo aqui presente.

8. Faz uma síntese do conto estudado.