16.9.08

Entre o amor e a noite caminhei



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Entre o amor e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei.

Entre o luar e a sombra caminhei
Era ali a minha alma, cada flor
- cega, secreta e doce como estrelas –
Quando a tocava nela me tornei.

E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes mas convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilam sinais, quebrados ecos
Que no silêncio fantástico beijei.

Sophia de Mello Breyner Andresen



I

1. Há, na poesia de Sophia, uma inquietação que se defronta com a beleza do mundo.
1.1. Identifique os elementos semânticos que apontam para esse contraste entre:
- um mundo / lugar de vida;
- um mundo em transformação.
1.2. Justifique o paralelismo presente no primeiro verso das duas primeiras estrofes.

2. Explicite a intimidade que se percebe na relação do sujeito poético com o cosmos que evoca.

3. Defina o tipo de sentimentos, aparentemente contraditórios, que surgem ao longo do poema.

4. Mostre que há uma procura da plenitude na natureza e no silêncio.

5. "Era ali a minha alma, cada flor/- cega, secreta e doce como estrelas -"
5.1. Explique o sentido dos versos transcritos.
5.2. Explicite a expressividade dos adjectivos presentes, tendo em conta as sensações que veiculam.


II

Em Sophia, utilizando uma expressão de António Guerreiro (in Expresso, 24 de Janeiro de 1998), há uma «invocação que nasce de uma escuta do ressoar das coisas e da música que sempre constituiu um desafio ao poder dos homens.»

Num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, comente a afirmação transcrita, recordando o fascínio de Sophia pela pureza original e pela agitação cósmica. Pode recordar o feitiço que as águas ou o mundo clássico exercem, bem como a sua capacidade sibilina e de atenção ao mundo.