15.9.08

A Bouça do Hortal


Delta Cows Art Print by Lowell Herrero


Viveu, em tempos idos, na freguesia de Eiriz, ali para os lados de Santo Tirso, um lavrador abastado, dono da bouça do Hortal, onde diariamente deixava as suas vacas a pastar.
De manhãzinha, quase logo ao alvorecer, levava o homem as suas vacas para a bouça e lá as deixava, sós, sem pastor que as guardasse porque a bouça era vedada por uma tapada alta cerrada.
Acontecia que à noite, quando ia buscar as vacas à bouça, para mungir e recolher, faltava frequente-mente uma delas, e por sinal a mais gorda e luzidia. Sendo a sua melhor leiteira, nesses dias em que desaparecia vinha invariavelmente sem leite, o que muito o espantava. Além disso, nessas alturas em que não a via a pastar juntamente com as outras, dava por ela, de repente, aparecendo por detrás de um espesso silvado.
Muito intrigado, o lavrador decidiu vigiar o animal e passou a acompanhar o rebanho até à bouça. Durante dois dias nada aconteceu. Ao terceiro, porém, i a vaca desapareceu sem deixar rasto e por mais que a procurasse não conseguiu dar com ela. Pela tardinha, quando recolheu, ali estava ela, anafada mas sem leite. Ê este fenómeno reproduziu-se outras vezes, sem que o homem conseguisse deslindá-lo. Parecia coisa mágica!
Um dia, porém, ocorreu-lhe um expediente que esperava resultado. E deu-o, realmente. De manhã, ao sair de casa, agarrou-se ao rabo da vaca e não o largou mais. A vaca deu umas voltas pela mata, pachorrentamente, pastando como as outras, até que, por fim, chegou-lhe a veneta da partida. Desencabrestou apressada por entre o espesso silvado ao fundo do qual o lavrador viu a entrada de uma mina, onde ela enfiou de corrida, como se o trambolho que levava ao rabo a incomodasse menos do que uma varejeira.
O pobre homem, agarrado ao rabo da vaca, lá ia de cambulhada, ora correndo apressadamente, ora meio de rastos quando tropeçava nalguma pedra. A mina era um intrincado labirinto. Umas vezes subia, outras descia, dava voltas e mais voltas, toda ela era um emaranhado de encruzilhadas. Lá dentro era tão escuro e impenetrável que o homem se sentia perdido, como se tivesse entrado na noite primordial, no caos anterior a todas as vidas. Depois, o eco dos seus passos trôpegos ressoava tão assustadora-mente pelas abóbadas da mina que parecia o som de mil carruagens rodopiando dentro da sua cabeça. Era de arrepiar os cabelos e, de facto, o homem estava enregelado e arrepiado, se bem que o suor lhe escorresse das frontes, dos sovacos e dos joelhos.
Loucamente agarrado ao rabo da vaca, como se fosse aquele o único ponto de salvação de um náufrago, o homem deixou-se conduzir por aquela maré terrífica. De súbito, vislumbrou uma luminosidade, cada vez mais viva, até que se viu dentro de um fabuloso palácio de ouro e cristal, iluminado e brilhante como um sol.
A vaca entrou por ali dentro como se o palácio fosse o seu próprio curral. Pelo chão atapetado havia bolas de ouro, diamantes a rodos, pedras preciosas de todas as cores e tamanhos. De olhos esbugalhados, o homem bem lhe apetecia apanhá--los, mas o pavor de ali ficar eternamente perdido fê-lo agarrar ainda com mais força o rabo da vaca e desistir de toda aquela enlouquecedora tentação de riqueza.
Por fim, a vaca parou num enorme salão, como não há coisa igual em terra alguma do Mundo, em que a luz era coada através de uma poalha finíssima de ouro. Mal refeito da caminhada e do espanto, o lavrador deixou-se cair no chão, sempre agarrado aos pêlos do rabo da vaca.
Esta porém não se mexia e parecia esperar mansamente alguma coisa. Com efeito, apareceu inesperadamente uma velha muito feia, seca e encarquilhada. Vinha vestida com um grande balandrau preto, de seda, mas no rosto brilhavam, sob um cabelo branco e hirsuto, uns olhinhos redondos e vivos.
Abeirou-se da vaca e o lavrador encolheu-se todo de medo. A velha, contudo, não deu pela sua presença e sacou debaixo do balandrau uma escudela de ouro polido. Sentou-se num escabelo de pau-rosa embutido a marfim e começou a mungir a vaca, que, muito quieta, esperou o final da operação.
Quando a escudela ficou cheia e a velha se levantou do banco, a vaca, com um sacão, desembestou de novo à desfilada a caminho da bouça. O homem agarrou-se como pôde e lá partiu aos tropeções através das salas iluminadas do palácio. Conforme iam passando faziam saltar diante de si um areal de rubis, safiras, esmeraldas, tudo isto envolvido na tal poeira de ouro tão fina que sufocava. Mas o receio de perder o rabo da vaca endiabrada não permitia ao homem lançar mão de um punhado daquela riqueza desperdiçada no fundo da mina. Lá ficou tudo!
A vaca, na sua correria, voltou a entrar na treva da mina e, pouco depois, desembocava por detrás do silvado da bouça do Horta).
O lavrador, assim que se viu de novo no seu mundo, não quis saber de mais nada. Largou a vaca, esqueceu a bouça e desatou a correr com quanta força tinha, monte abaixo, em direcção à casa de Eiriz. Pelo caminho ia fazendo o sinal-da-cruz dezenas de vezes para purificar a sua alma do que vira dentro da mina.
Nunca mais ninguém o voltou a ver próximo da bouça, nem para lá tornaram os seus animais. Quanto à vaca, conta-se que ainda hoje é vista de vez em quando na bouça do Mortal, pastando pachorrentamente o mato mimoso. O que não consta é que alguém lhe voltasse a agarrar o rabo!

Lendas Portuguesas, recolha de Fernanda Frazão

I

1. Detecta o "intruso" em cada frase e repõe a verdade.
1.1. Um lavrador remediado deixava diariamente as suas vacas a pastar na bouça do Mortal.
1.2. À noite, quando as ia buscar, faltava sempre uma delas, a mais magra e baça.
1.3. Quando ela reaparecia, encontrava-a sempre num descampado.
1.4. O lavrador, muito intrigado, resolveu acompanhar a vaca até à bouça.
1.5. Um dia, resolveu montar na vaca para ver para onde ela ia.
1.6. A vaca, de súbito, resolveu entrar no espesso silvado e foi dar à entrada de uma casa.
1.7. Correndo, subiu e desceu naquele labirinto, sempre iluminada.
1.8. De seguida e após um clarão, entrou num curral de ouro e cristal, como se fosse o seu próprio palácio.
1.9. Havia um grande tesouro e o homem apanhou alguns diamantes, sempre agarrado à vaca.
1.10. Já num enorme salão, apareceu-lhe uma jovem esbelta que mungiu a vaca.
1.11. Terminada a recolha do leite, a vaca regressou com o homem no meio de uma nuvem de pó espesso que sufocava.
1.12. Logo que se viu de novo no seu mundo, tratou de correr para casa com os diamantes que apanhara.
1.13. Pelo caminho, fez o sinal-da-cruz três vezes para purificar a alma do que vira e não voltou a aparecer na bouça.
1.14. Quanto à vaca, diz-se que ainda é vista a correr, contente, no mato mimoso.

2. Identifica as figuras de estilo presentes nas seguintes passagens textuais.
2.1. "Conforme iam passando, faziam saltar diante de si um areal de rubis, safiras, esmeraldas (...)."
2.2."(...) até que se viu dentro de um fabuloso palácio de ouro e cristal, iluminado e brilhante como um sol."
2.3."(...) toda ela era um emaranhado de encruzilhadas."
2.4."(.-) o lavrador deixou-se cair no chão, sempre agarrado aos pêlos do rabo da vaca."

3. Justifica, por palavras tuas, o emprego das figuras de estilo que identificaste em 2. (não te esqueças de referir a mensagem transmitida em cada uma das passagens textuais!).

II

Ao lavrador de "A Bouça do Hortal" poder-se-ia aplicar o provérbio ou máxima popular "O homem prudente vale mais que o valente".
1.1. Justifica a aplicação deste provérbio.
Refere outros provérbios que poderiam caracterizar o lavrador.