27.8.08

Não sei se é sonho, se realidade

Fernando Pessoa - ortónimo


Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida.
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, ã luz da Lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

Fernando Pessoa

I

1. A arquitectura do poema apresenta-nos duas estruturas paralelas.
1.1. Identifique os elementos estruturadores dessa construção.
1.2. Mostre a expressividade das palavras ou locuções que iniciam cada estrofe.

2. Uma dor de pensar sobressai na segunda parte do poema.
2.1. Faça o levantamento dos recursos utilizados para explicitar a transição entre o sonho e o mundo pen¬sado.
2.2. Evidencie a realidade que privilegia na conclusão do poema.

3. "Não é com ilhas do fim do mundo, /Nem com palmares de sonho ou não, /Que cura a alma seu mal profundo,/ Que o bem nos entra no coração."
3.1. Explique o sentido dos versos transcritos.
3.2. Identifique os recursos estilísticos presentes nesses versos.


II

Comente, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, a afirmação de Yvette Centeno, tendo em atenção a obra pessoana, nomeadamente a Mensagem.
A obra de Pessoa não é senão o esforço de uma vida em busca da sua alma: múltipla, repartida, no ponto mais exterior buscando o mais interior, intensamente.

Yvette Kace Cenleno, Hermetismo e Utopia, Lisboa, Salamandra, 1995


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e noventa e cinco palavras, num texto de cento e vinte e uma a cento e quarenta e uma palavras.
Antes de iniciar o seu resumo, leia atentamente as instruções dadas em final de pagina.


Poucos portugueses há que gostem de árvores. Tiram-lhes a vista... Querem o campo visual desafrontado como se temessem inimigo oculto.
De geração em geração, vai-se agravando esta sanha arboricida. Árvores isoladas, que cresceram e se desenvolveram livremente, dando nome e beleza a certos sítios, uma hoje, outra amanhã, foram sacrificadas a esse furor, porque eram árvores. Aquele pinheiro manso, aquele castanheiro, aquele cedro - já não existem. Foram degolados sem que ninguém os defendesse nem chorasse. O mais que se diz, em seu louvor, é que deram bons carros de lenha.
Esta árvore deve ir abaixo, porque está velha. Esta árvore deve ir abaixo porque estorva. Esta árvore deve ir abaixo porque não deixa ver quem vai na rua. Verdade é que nem a árvore está velha, nem estorva, nem impede que se vejam as pessoas que se querem ver. Mas, é árvore... Deve morrer porque teve a pouca sorte de ser árvore.
O homem antigo, se não amava as árvores, respeitava-as por instinto. Foi a maneira de nos legar algumas. O homem moderno põe em jogo uma espécie de inteligência para as destruir. Não quer que tenham fisiologia. Não admite que levantem passeios, nem arremessem folhas aos telhados. Quer que sejam inertes como candeeiros. Q homem actual deixará à posteridade em vez de árvores, pérgulas de cimento. Confunde urbanismo com desarborização. O urbanismo que pede verdura, é entre nós sinónimo de secura. Ninguém urbaniza sem pôr raízes ao sol.
Há quem diga que é preciso destruir árvores para dar lugar aos automóveis. Mas se o motor de explosão, com as suas exalações, destrói a saúde pública e a árvore é o seu contraveneno, é indispensável conciliar a existência do motor com a existência da árvore. É preciso que se acomodem ambas no espaço que lhes couber, sob pena de morrer¬mos envenenados.
Cada árvore é uma bica de oxigénio indispensável à vida. É, de mais a mais, filtro de gases tóxicos provenientes de combustões devidas ao nosso comodismo. Tais gases vão fazendo de cada povoado uma câmara de condenados ã morte. Os moradores de certos países parecem moribundos.
Só a árvore os poderá salvar.
Conviria convencer de tal verdade o nosso homem comum, que não olha as belezas da paisagem, mas é capaz de defender a beleza da sua pele. Só assim se poderão salvar as árvores que ainda existam em cidades e vilas portuguesas.

João Araújo Correia, Passos Perdidos



Nota:
Há uma tolerância de quinze palavras relativamente ao total pretendido (cento e seis palavras como limite mínimo e cento e cinquenta e seis como limite máximo). Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência de caracteres delimitada por espaços em branco, mesmo quando hifenizada. De acordo com este critério, o fragmento a seguir transcrito é constituído por nove palavras: "De/geração/em/geração,/'vai-se/agravando/esta/sanha/arboricida/".