6.8.08

Lenda da vitória-régia




Estava uma noite muito quente. O luar era tão claro, que se enxergava quase como se fosse de dia. Perto da lagoa havia uma importante tribo de índios, que hoje já não existe. Entre os índios, havia um velho chefe, muito procurado pelas crianças, que gostavam de ouvir as suas histórias.
Como a noite estava quente e o luar muito lindo, o velho cacique tinha-se s sentado muito per-to da lagoa, para descansar e apreciar aquela beleza. Logo que as crianças descobriram que ele estava ali, foram sentar-se perto dele. Pediram que lhes contasse uma história. O cacique, porém, estava tão distraí¬do, admirando a vitória-régia, que nem se apercebera da chegada das crianças. (...) Por fim sorriu-lhes.
- O que estava a ver com tanta atenção? - perguntou uma.
- Aquela estrela! Aquela bonita estrela - respondeu o cacique, apontando para a vitória-régia.
As crianças ficaram admiradas e trocaram um olhar significativo. A vitória-régia era uma estrela? Pobre cacique! Ele percebeu o espanto das crianças e disse-lhes:
- Não tenham medo! Não fiquei doido, não. Não acreditam que a vitória-régia seja uma estrela? Então ouçam:
Há muitos e muitos anos, nem eu sei quantos, na nossa tribo vivia uma índia, muito jovem e muito bonita, a quem tinham contado que a lua era um guerreiro forte e poderoso. A moça apaixonou-se por esse guerreiro e não quis casar-se com nenhum dos índios da tribo. Não fazia outra coisa senão esperar que a lua surgisse. Aí, então, punha os olhos no céu e não via mais nada. Só o poderoso guerreiro. Muitas vezes, ela saía a correr pela floresta, os braços erguidos, procurando agarrar a lua.
Todos na tribo tinham pena da índia, pena de vê-la dominada por um sonho tão louco.
E o tempo foi passando... contudo, o sonho não deixava a pobre moça em paz. Queria ir para o céu. Queria transformar-se numa estrela, numa estrela tão bonita, que fosse admirada pela lua. Mas a lua continuava distante e indiferente, desprezando o desejo da jovem. Quando não havia luar, a rapariga permanecia aborrecida na sua oca, sem falar com ninguém. Eram inúteis os esforços dos amigos e parentes para que ela ficasse com as outras moças. Continuava recolhida, silenciosa, até a lua aparecer novamente.
Numa noite em que o luar estava mais bonito do que nunca, transformando em prata a paisagem da floresta, a moça repetiu a sua tentativa. Chegando à beira da lagoa, viu a lua reflectida no meio das águas tranquilas e acreditou que ela tinha descido do céu para se banhar ali. Finalmente, ia conhecer o famoso e poderoso guerreiro. Sem hesitar, a índia atirou-se às águas profundas e nadou em direcção à imagem da lua. Quando percebeu que tinha sido ilusão, tentou voltar, mas as forças faltaram-lhe e morreu afogada.
A lua, que era, como eu disse, um guerreiro forte e poderoso, uma espécie de deus, viu o que tinha acontecido e ficou compadecida. Sentiu remorso por não ter transformado a formosa índia numa estrela do céu. Agora era tarde. A moça ia pertencer, para sempre, às águas pro-fundas da lagoa. Porém, já que não era possível transformá-la numa estrela do céu, como ela tanto desejara, podia transformá-la numa estrela das águas. Uma flor que seria a rainha das flores aquáticas.
E, assim, a formosa índia foi transformada na vitória-régia. À noite, essa só maravilhosa flor abre-se, permitindo que a lua a ilumine e revele a sua impressionante beleza.

Histórias e Lendas do Brasil (adaptação)


I

1. Podemos identificar nesta lenda dois narradores. Indica o momento em que o segundo narrador assume protagonismo no relato da lenda.
1.1. Refere todos os elementos que permitem caracterizar esse narrador.

2. Onde e quando vai ser contada a lenda da vitória-régia?
2.1. Quem a vai ouvir?

3. Considera a lenda que vai ser contada e indica as personagens que participam na acção, distinguindo as individuais e as colectivas, por um lado, e as humanas e não humanas, por outro.

4. Para cada uma das afirmações seguintes, identifica passagens textuais que as justifiquem.
a. A lenda da vitória-régia tem origens muito remotas.
b. Trata-se de uma lenda em que o amor, o sonho e a compaixão dominam as acções das personagens.
c. Há diversas referências a espaços onde decorre a acção.
d. Nesta lenda é possível identificar os elementos do maravilhoso ou da fantasia popular.
e. Nesta história podemos encontrar recursos expressivos como a personificação e a adjectivação.

II

1. Retira do texto:
a. uma frase de tipo interrogativo;
b. uma frase de tipo exclamativo;
c. uma frase de tipo imperativo.

2. Classifica os seguintes adjectivos quanto ao género e ao número:
a. "quente"
b. "jovem "
c. "bonita"
d. "impressionante"

3. Retiramos as seguintes frases do texto:
a. "Pobre cacique!"
b. "Finalmente, ia conhecer o famoso e poderoso guerreiro. "
3.1. Se reparares, em ambas as frases os adjectivos surgem antes do nome que qualificam. Que efeitos é que esta ordem menos habitual provoca em termos de significado?