23.8.08

CENA XVI


CENA XVI
Ditos, Duarte, Amália, Joaquina

Duarte -Ora com efeito! forte companhia fazem os tais Senhores! -O Senhor meu Sogro levanta-se no meio do almoço, e daí a um instante Milorde desaparece à segunda garrafa de champanhe.
Joaquina -Vieram procurá-lo.
Duarte- Não duvido... algum pobre rapaz que se achou em aperto... Que é preciso confessar... o tal sujeito é a criatura mais serviçal... E então sem nenhum interesse! - Diga-me uma coisa, amabilíssimo sogro, que fazemos nós esta manhã?
Brás Ferreira -Eu tinha vontade de sair; mas temos aqui uma visita, um amigo da família...
Duarte -Perdoe... eu não tinha tido o gosto de ver este senhor... É do Porto?
Brás Ferreira -É verdade.
Duarte -Ia jurá-lo... Nós, os das províncias do Norte, temos um ar de franqueza, um aberto de fisionomia... Se Vossa Senhoria se demorar em Lisboa, terei muito gosto de o acompanhar, de lhe servir de guia... Não faça cerimónia comigo... sinceramente lho peço... um amigo e meu sogro!...
General -Dou-lhe os parabéns, Senhor Brás Ferreira: o seu genro parece um rapaz extremamente amável.
Brás Ferreira (baixo ao general) -Espere, espere, e depois falará. (A Duarte) É preciso que saibas, meu caro amigo, que este senhor vem a Lisboa para negócios que tem na Secretaria da Guerra e precisa muito do valimento do general Lemos.
Duarte -Melhor... Dizem que é um homem justo e imparcial; e toda a gente o estima.
Brás Ferreira -Pois sim... mas tu, que tens relações de intimidade com ele, não podias pela tua influência?...
Duarte -Ah! certamente... terei a honra de lho apresentar. Há-de gostar dele, verá: um homem agradável e que, sem bazófia, é meu amigo.
Brás Ferreira (rindo) -Rem!
General (baixo a Brás Ferreira ) -Até aqui, acho que diz a verdade.
Duarte -E alegre!... Olhe: à mesa me não deixava ele só como aqui me fizeram. Ainda ontem almoçámos nós juntos em sua casa.
Brás Ferreira e General- Em casa dele?!
Duarte -Sim, juntos, ao pé um do outro.
Brás Ferreira -Então, muito mudado está ele de ontem para cá.
Duarte -Porquê?
Brás Ferreira (apontando para o general) -Porque ele aqui está, e tu não o conheceste.
Duarte (surpreendido) -O general Lemos!
Joaquina (aparte) -Estamos perdidos.
Amália -Tudo, tudo está perdido.
Duarte (tornando a si logo) -O quê? pois este é o senhor general Lemos? Muito sinto... ~ão tenho a honra de o conhecer.
Brás Ferreira -Não duvido... mas nem por isso deixa de ser ele em pessoa.
Duarte -Há-de-me perdoar, meu tio: eu não digo o contrário mas não foi com este senhor que eu almocei ontem... a verdade pura é esta. Como isto foi é que eu não sei; mas, a não ser que haja outro general Lemos em Lisboa...
General -Em Lisboa, do apelido de Lemos nem eu conheço senão meu primo, o coronel Francisco de Lemos.
Duarte -Exactamente. Pois foi em casa dele, decerto, que ontem me apresentaram, e provavelmente com ele é que eu almocei.
General -Não teria dúvida nenhuma em o acreditar, se não fosse uma pequena dificuldade: é que há três meses que está em Inglaterra.
Duarte (aparte) -Coa breca! (Alto) É que voltaria há pouco, sem se saber... porque ele ontem estava em Lisboa.
Brás Ferreira -Não estava.
Duarte -Estava tal.
Brás Ferreira -Pois bem, rapaz, esqueço-me de tudo... se me provares essa.


Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir


I

Completa as frases propostas com palavras tuas, a partir de informações textuais.
1. Duarte queixa-se. ..
2. O rapaz a que se refere Duarte. ..
3. Brás Ferreira não pode sair de casa. ..
4. Duarte oferece-se para. ..
5. O general fica agradado. ..
6. Brás Ferreira testa Duarte ao dizer-Ihe que...
7. Duarte não se mostra...
8. Duarte mente ao dizer que. ..
9. Brás Ferreira, triunfante, diz. ..
10. Joaquina e Amália. ..
11. Duarte apressa-se. ..
12. O general Lemos esclarece que. ..
13. Duarte não perde tempo: ...
14. Brás Ferreira faz-lhe um desafio ...


II

Atenta nas seguintes passagens textuais:
."Nós os das províncias do norte temos um ar de franqueza, um aberto de fisionomia. .."

."Há-de gostar dele, verá: um homem agradável e que, sem bazófia, é meu amigo."

."Há-de-me perdoar, meu tio: eu não digo o contrário; mas não foi com este senhor que eu almocei ontem... A verdade pura é esta. Como isto foi é que eu não sei; mas a não ser que haja outro general Lemos em Lisboa..."

1. Caracteriza Duarte, partindo das passagens textuais apresentadas.

2. Identifica a característica da personagem vincadamente repetida nas citadas passagens textuais.
2.1. Isola as expressões que documentam essa característica de Duarte.

3. Comenta a expressividade das reticências na caracterização da personagem.

4. Apoiando-te em passagens/expressões textuais, diz como Brás Ferreira e o General Lemos caracterizam Duarte.