11.8.08

CENA II


CENA II
Ditos e Amália

Amália - Joaquina! Joaquina! ando à tua procura. O Senhor Duarte ainda não veio?
Joaquina - Não, minha Senhora.
Amália - Que homem é esse com quem tu estavas a falar?
José Félix -Anda, apresenta-me como gente.
Joaquina - Minha Senhora, é aquele rapaz de quem lhe eu dizia no Porto...
Amália - Ah! já sei: o Senhor José Félix. Tens bom gosto, Joaquina. O pior é que se vocês não têm de casar senão quando o meu casamento se fizer, tenho muito medo que ainda esperem bem tempo.
Joaquina - Então porquê, minha Senhora?
Amália - Ora! estou desesperada, transtomou-se tudo; meu pai quer quebrar com ele.
Joaquina - Com o Senhor Duarte?
Amália - Sim; pois com quem?
José Félix (aparte) - Meu Deus! e as nossas cem moedas!
Joaquina - Não é possível: a mesma família, a mesma riqueza, um casamento tão igual, tão acertado... Seu pai não se há-de atrever.
Amália - Nada, não! Veio a Lisboa - agora é que o eu sei bem - só para achar pretexto de o desmanchar.
Joaquina -Pois não o há-de achar. O Senhor Duarte é um rapaz como há poucos. Juízo não lhe falta: suas doidices... não é, é pancada da mocidade. Isso passa depressa. Bom coração... não o há melhor. Quer a senhora saber? O mal que ele faz é por moda... todos assim são... e o bem que ele faz, que é muito, esse, minha Senhora, não é moda que pegue.
Amália - Pois sim; mas já que falamos nos seus defeitos, sempre te digo que ele tem um, que se meu pai o vem a descobrir... Tenho-lho encoberto até agora, mas se ele o chega a conhecer, acabou-se, nunca mais lhe perdoa. Meu pai é um negociante dos antigos, que leva a honra e probidade, a lisura e a verdade no trato, a um ponto de severidade que é quase rudeza... e Duarte é muito bom rapaz, não há dúvida; mas não sei se é distracção se é doidice, tomou o costume de nunca dizer uma palavra que seja verdade.
José Félix - Percebo: tem viajado muito...
Joaquina - Não, mas é morgado, e de raça quase castelhana...
José Félix - Entendo, entendo: echelas usted más blandas.
Joaquina - E demais a mais, há seis meses que está em Lisboa...
José Félix - Onde todos os talentos se aperfeiçoam.
Amália - Enfim, meu pai declarou que à primeira mentira bem clara, bem provada em que o apanhasse, tudo estava acabado.
José Félix -Ora adeus! O Senhor seu Pai, com efeito... ele ainda é parente, bem se vê, há-de ter sua costela espanhola... O seu projecto é outra espanholada também... Querer impedir que um rapaz de tom, da moda, pregue a sua peta!... isso é mais do que formar castelos em Espanha, é querer meter o Rossio pela Betesga.
Amália - Meu pai é que o não entende assim: e eu não sei como hei-de avisar a Duarte.
Joaquina - Vou eu pôr-me à espera dele. Não tarda a vir por aí; e antes que entre e que fale com seu pai, hei-de avisá-Io que tome conta em si, e que não dê notícias senão as que forem oficiais... a ser possível.
Amália - Cala-te: oiço falar no quarto de meu pai; é a voz de Duarte.
Joaquma - E que entrou pela outra escada.
Amália -Está tudo perdido! Se ele falou com meu pai... aposto que já... Nunca vi: é que não pode, mente por hábito e sem saber o que faz.
Joaquina - Então agora o que se podia... o que era de mestre, era fazer que o Senhor Brás Ferreira o não conhecesse. Por fim de contas, a nós que nos importa que ele minta, contanto que seu pai o não perceba?
José Félix - Ela tem razão, a Joaquina. E é mais fácil isso. Se a Senhora D. Amália se confia em mim, e me autoriza...
Amália -Oh meu Deus! Se vocês encobrem aquele defeito a meu pai, fico-lhes numa obrigação... Depois, em nós casando, eu emendarei. Que se não fosse isso...
José Félix - Está claro, minha Senhora. Mas agora é preciso que o Senhor Duarte me não veja. Eu é que se pudesse ouvi-lo, e fazer assim ideia do seu modo.
Joaquina (apontando para uma alcova, à direita) - Ora! ...aquela alcova. ..e tem uma porta que dá direita na escada... Eles aí vêm: entra depressa, esconde-te.

Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir


Apesar da falta de cores, pode-se perceber que o cenário é cheio de detalhes.


I

1. Duarte não resiste á tentação de mentir.
1.1. De que forma estas mentiras contribuem para a caracterização psicológica de Duarte?

2. Que processo de caracterização é utilizado?

3. A sucessão de mentiras gera um processo de comicidade.
3.1. Como classificas o processo de cómico utilizado?

4. Como interpretas as reacções de Brás Ferreira e Joaquina à suposta morte da marquesa?

5. Que título propões para esta cena? Justifica a tua resposta.