10.8.08

CENA I


CENA I
Joaquina, José Félix


Joaquina - Entre, Senhor José Félix, entre. Isto são umas madrugadas!... Para uma pessoa como o senhor José Félix, o criado particular de um fidalgo da corte! Lá por fora ainda mal são nove horas...
José Félix - Nove horas... e fidalgo da corte!... Recolha o seu espírito, senhora D. Joaquina. Meu amo é general, estamos de acordo; nove horas deram há muito. Mas cá em Lisboa contam-se as horas e os fidalgos por outro modo. Lá na província, minha querida Joaquina...
Joaquina - Ai, como tu estás tolo! A província, a província... Ora isto! Saiba que eu que venho do Porto, senhor José Félix, que é a segunda capital do reino, e a cidade eterna, como dizem os periódicos. Província será a sua terra de você, que há-de ser a Lourinhã, ou a aldeia de Paio Pires, ou coisa que o valha. E então?..
José Félix - Basta, Joaquina, basta; recolhe o teu espírito, que já aqui não está quem falou. Soube ainda agora que tinham chegado ontem à noite no vapor, que estavam aqui nesta hospedaria, que é pegada quase com a nossa casa; e vim logo, minha adorada Joaquina, reclamar o prémio de onze meses de eternas saudades.
Joaquina - E você, vamos a saber, você tem sido constante, fiel?..
José Félix - Horrivelmente fiel! Maldição, Joaquina, maldição!...
Joaquina - Que diz ele?
José Félix -Se tu vens da!... da província não. Não, Joaquina, tu não vens da província, vens da cidade eterna... Virás. Maldição eterna sobre quem o duvidar! Mas vens, vens donde ainda se não sabe a língua das românticas paixões, dos sentimentos copiados do nu da natureza como nós cá a temos na Rua dos Condes, e nos folhetins das folhas públicas, que são o órgão da opinião incomensurável dos séculos.
Joaquina - Se te eu entendo...
José Félix - A h ! tu não entendes? Bem, Joaquina, bem. Nem eu: nem ninguém. Por isso mesmo, Joaquina. A moda é esta. Deixa: em tu estando aqui oito dias, ficarás mais perfeita do que eu; porque a tua alma de mulher é feita para compreender o meu coração de homem. E então, vês tu? Oh Joaquina, anjo, mulher, sopro, silfo, demónio! eu amo-te! amo-te, porque...
Joaquina - Cruzes!
José Félix - Não me interrompas, não me interrompas, deixa ir. Silfo, anjo, sopro, mulher, amo-te porque o meu coração está em brasa, e tenho umas veias, e estas veias têm umas artérias... e estas artérias têm... não têm, as artérias não têm nada; mas batem, batem como os sinos que dobram pelo finado na hora do passamento, que é morrer, morrer, morrer... oh Joaquina, morrer! E que é a morte? É a vida que cai nos abismos estrepitosos da Eternidade, que é, que é...
Joaquina - Isso é comédia, ou tu estás a mangar comigo?
José Félix - Isto é o drama das paixões, que o sentimento, a verdade...
Joaquina - Pois olha: tinha uma coisa muito séria que te dizer; mas como tu estás doido, adeus!
José Félix - A poesia da vida é esta, Joaquina. Mas... mas passemos à vil prosa dos interesses materiais do País, se é preciso. Vá. Far-te-ei mais esse sacrifício. Que exiges tu de mim?
Joaquina - Que deixes essas patetices agora e oiças. Meu amo, o Senhor Brás Ferreira, que é um ricaço como tu sabes, um daqueles negociantes do Porto que têm dinheiro como milho, vem de propósito a Lisboa para casar a menina. É uma filha única e morre por mim, coitada! É um anjo! Prometeu-me que no dia em que se assinassem as escrituras tinha eu o meu dote.
José Félix - Dote! Céus! um dote... Oh Joaquina, pois tu tens um dote?.. Não quero saber de quanto. Quem, eu? Maldição sobre mim!
Joaquina - Cem moedas.
José Félix - Oh! seja o que for, que me importa. O amor, o amor verdadeiro não conta os pintos do objecto amado... Não... E é em dinheiro de contado, sonante, Joaquina?
Joaquina - Sim, senhor.
José Félix - Melhor: porque bem vês, com a minha educação, um rapaz que emigrei, estive em Paris, e hoje sou cr.iado particular de um general... habilitado para ser mordomo de um clube dos de primeira ordem - a Galocha já eu recusei - bem vês, não podia formar uma aliança que me não desse os meios de sustentar a posição social em que me acho colocado. Mas tu tens dote; acabou-se. Recolho o meu espírito e estendo a minha mão.
Joaquina - Ai, José Félix! mas o casamento de minha ama ainda não está feito.
José Félix - Pois que há... que impedimentos?
Joaquina - Não sei... quando vínhamos no vapor, pareceu-me, vi que havia transtorno. O pai e a filha tiveram suas coisas a esse respeito e a menina anda triste, desassossegada. Estou certa que há impedimento grande, há obstáculos...
José Félix - Obstáculos! Não há, não os pode haver. A minha paixão, a nossa felicidade, cem moedas sonantes, mil pintos, cos diabos! absolutamente não pode deixar de ser, há-de-se fazer este casamento, Joaquina... A honra, a delicadeza, tudo lhe ordena, Senhora Joaquina, que vá já desenganar o papá. E se é preciso que eu tome parte na questão...
Joaquina - O caso era saber a gente o que é, e onde a coisa pega... Mas espere; olha, aí vem a Senhora D. Amália: deixa-te tu estar e... Mas não vás tu fazer falta em casa a teu amo.
José Félix - Meu amo! Toma. Tu estás muito atrasada, Joaquina. Meu amo é um cavalheiro, um general, uma pessoa da primeira sociedade, portanto costumado a fazer esperar os outros, e a esperar ele pelos seus criados, que é a regra. Além disso, eu tenho licença por todo o dia, que houve lá uma coisa em casa... A senhora chorou, o senhor ralhou. Eu te contarei noutra ocasião, que hás-de rir. O caso é que hoje tenho o dia por meu. Ela aí vem, a tua ama. Vem triste, coitada! Firme, Joaquina! Olha que a coisa é séria para ti, um dote e um marido
!

Almeida Garret, Falar Verdade a Mentir



I

1. Começa por estudar as personagens que aparecem na Cena 1.
1.1. Preenche a grelha.


1.2. Refere a relação que existe entre as duas personagens. Apoia a tua resposta em expressões textuais.

2. Indica o motivo que leva José Félix a visitar Joaquina. Justifica a tua resposta.

3. Joaquina informa-o de uma novidade que interessa aos dois.
3.1. Identifica-a.

4. Diz como interpretas a última intervenção de José Félix.

5. Situa a acção no tempo e no espaço.

6. Recorda o estudo que fizeste dos níveis de língua
6.1 .Identifica e justifica os níveis de língua utilizados nas expressões:
6.1.1. "Recolha o seu espírito, Senhora D. Joaquina."
6.1.2. "Lá na província, minha querida Joaquina. .."
6.1.3. "Mas. ..mas passemos à vil prosa dos interesses materiais do país, se é preciso."
6.1.4. "(. ..) Um daqueles negociantes do Porto que têm dinheiro como milho (...)."

7. Analisa sintacticamente as frases:
7.1 "Meu amo é general (. ..)."
7.2 "(. ..) O senhor Brás Ferreira (. ..) Vem (. ..) A Lisboa para casar a menina."
7.3 " (. ..) O amor verdadeiro não conta os pintos do objecto amado."
7.4 "Oh Joaquina (...) Tu tens um dote?.."