24.8.08

Carta para Josefa, minha avó




Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal! Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e aos roubos dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando, se soubesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa, de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"
É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.

José Saramago, Deste mundo e do outro



I

1. Atenta no retraio da avó Josefa.
1.1. Propõe cinco adjectivos que resumam os elementos de caracterização contidos no primeiro parágrafo e que não tenham aí sido usados pelo autor.
1.2. Para evidenciar as características da avó o narrador recorre a alguns recursos estilísticos.
1.2.1. Encontra, nos dois primeiros parágrafos:
- uma hipérbole;
- uma comparação.
1.2.2. Explica o sentido das metáforas: "Trave da tua casa, lume da tua lareira... "
1.3. Explica a afirmação com que o narrador inicia o segundo parágrafo: "Não sabes nada do mundo."
1.4. Explicita o valor do conector sublinhado no excerto que se segue: "E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre."

2. Nos três últimos parágrafos do texto, o narrador refere-se, sobretudo, à sua incompreensão relativamente a alguns factos relacionados com a avó.
2.1. O que é que o narrador não entende?
2.2. Indica o fragmento textual em que se resume o mundo da avó Josefa.
2.3. "Mas disto entendo eu... "
2.3.1. Diz a que frases do texto se refere o pronome demonstrativo destacado.


II

1. Faz uma síntese do texto - que tenha entre 130 e 150 palavras - concentrando-te, especifica-mente, no retrato da avó Josefa e na forma como o neto se relaciona com ela.