29.8.08

O Camaleão e o Elefante


Sunset with Elephants Art Print by Leon Wells

Havia anos que não chovia na região de Gabú: os animais nada tinham nem para comer, pois as ervas estavam secas, nem para beber, também secos estavam os riachos.
O elefante convocou uma reunião de todos os animais da floresta para lhes expor a situação grave, e para cada um sugerir uma solução para resolver o problema. A perdiz pediu a palavra para dizer que a única solução era tentar fazer um furo ou uma cova na terra, dura como uma pedra, até encontrar uma fonte. Que não precisavam de auxílio dos homens. Os animais olharam confiantes para o elefante, que podia, só com uma patada, abrir uma fonte.
Ficaram todos à espera da decisão do elefante; só o camaleão que num canto, muito discreto, de súbito deu uma gargalhada. Todos os animais olharam para ele, furibundos; disseram-lhe:
— Estamos a tratar de um problema muito grave, e estás tu a rir.
O elefante, que tinha começado a cavar, parou, ameaçando o camaleão que, se continuasse a fazer pouco dele, o esmagaria com uma só patada. Os outros animais desatam também a rir: a galinha do mato, a ganga, ate o macaco. Apesar da sua força, o elefante, a suar, disse aos outros animais:
— Vou descansar um pouco, para recuperar forças.
Levantou-se então o camaleão do lugar onde estava, e, com o seu andar lento e cauteloso, aproximou-se dos outros animais, e disse-lhes:
— Não é a força que nos vai valer; é o jeito. O elefante não se conteve, deitou-lhe um olhar, como quem diz:
— Hás-de saber quem eu sou; havemos de ajustar contas.
Porém, o camaleão não se atrapalhou, pois estava seguro da vitória, a Começou a cantar, olhando para o elefante com o rabo do olho, e esgaravalando calmamente o solo.
Os animais a rirem-se todos. Mas, de súbito, ficaram espantados, quando viram um fiozinho de água a correr do buraco que fizera o camaleão. Fiozinho de água que se transformou em riacho. O camaleão. satisfeito, olhou para os outros animais, bebeu água, e disse-lhes:
— Venham beber água também; não tenham medo.
Com o mesmo andar lento, o camaleão, satisfeitíssimo, voltou para casa.


Benjamin Pinto Brull, O Crioulo da Guiné-Bissau: Filosofia e Sabedoria


I

1. Neste conto popular guineense delimita:
• introdução;
• desenvolvimento;
• conclusão; ''

e, numa frase curta, sintetiza o conteúdo da introdução e da conclusão.

2. Considera as personagens intervenientes.
2.1. Agrupa-as de acordo com o papel que desempenham.
2.2. Analisa o comportamento e atitudes das personagens secundárias, em particular da perdiz.
2.3. Observa a evolução do comportamento do elefante. Explica-a.

3. Compara as duas personagens principais. Explica a oposição entre elas relacionando-a com a conclusão moral do conto.

4. Qual dos provérbios melhor corresponde à moral desta história?
Nem sempre a razão do mais forte é a melhor.
Pequeno machado derruba grande sobreiro.
A razão do mais forte é sempre a melhor.



28.8.08

Rústica


Ser a moça mais linda do povoado.
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado.
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna.
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de Princesa,
E todos os meus Reinos de Ansiedade.
Florbela Espanca, Sonetos


I

1. Indique o tema do poema.

2. Divida o poema em partes e resuma muito brevemente o conteúdo de cada uma delas.

3. Caracterize a moça rústica apresentada por Florbela.

4. Qual o pedido feito a Deus? Indique a razão de tal pedido.

5. Identifique o estado de espírito do sujeito poético.

6. Identifique as sensações transmitidas no poema.

7. Explique o sentido do verso: Quando descer à "terra da verdade"...

8. Qual o recurso estilístico presente no seguinte verso? Ser pura como a água da cisterna. Qual o valor expressivo desse verso?

9.O poema é um soneto. Justifique.

27.8.08




Duarte - Certamente que faz. - Mas é isso que hoje parece mesmo um acinte... não invento senão verdades. - Pois não é minha culpa, Senhor Brás; mas em consciência, está obrigado a dar-me a sua filha.
General - Não há dúvida, Senhor Brás Ferreira; é preciso consentir neste casamento. Já não tem mentiras de que o acusar.
Brás Ferreira - Excepto a da recebedoria de Santarém.
General - Aqui está o decreto. É a prenda de casamento que eu lhe trazia.
Amália - Pois é possível?!
Duarte - Aposto que é verdade... tudo é verdade hoje. Assim, meu caro sogro, consinta, não há remédio...
Brás Ferreira - Estou certo que me enganaram.
José Félix - E eu também.
General - E eu também... Apesar disso, vamos, consinta...
Brás Ferreira - Que lhe hei-de eu fazer? Inda que não seja senão por curiosidade e para saber esta adivinhação.
José Félix (atirando com o chapéu) - Viva! A palavra do Senhor Brás Ferreira é letra que não tem desconto. Eu ritorno ai mio mestere e ponho aos pés da minha cara Joaquina... o Senhor Tomás José Marques... Milorde Coockimbroock, e sobre todos, o seu fiel José Félix, criado particular do Excelentíssimo General Lemos.
Duarte - Ó maroto, pois eras tu! Brás Ferreira - Faz-te de novas.

Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir



I

1. Situa o excerto na peca a que pertence.

2. As didascálias são importantes no texto dramático.
2.1. Transcreve, do texto, um exemplo de didascália.
2.2 Qual a sua função?

3. «(…) não invento senão verdades».
3.1. Explica o sentido da afirmação em 3.
3.2. Que característica sua revela a personagem com essa afirmação?
3.3. Que importância tem esse vício da personagem no desenrolar da peca?

4. Há na peça uma personagem que tem a faculdade de transformar em verdades todas as mentiras de Duarte.
4.1. De quem se trata?
4.2. Sublinha no texto a alusão aos papéis que a personagem representou.
4.3. Que objectivos orientaram a actuação da personagem?

5. De que modo o General colabora na teia de enganos?

6. Atribui, justificando, outro título à peça.

7. Com esta peca, tem Garrett o objectivo de levar o teatro até ao Povo. Terá conseguido?


II

Um camponês assistiu à representação da peça. Imagina o que ele terá dito do que viu a um punhado de amigos, numa taberna da aldeia.

Não sei se é sonho, se realidade

Fernando Pessoa - ortónimo


Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida.
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, ã luz da Lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

Fernando Pessoa

I

1. A arquitectura do poema apresenta-nos duas estruturas paralelas.
1.1. Identifique os elementos estruturadores dessa construção.
1.2. Mostre a expressividade das palavras ou locuções que iniciam cada estrofe.

2. Uma dor de pensar sobressai na segunda parte do poema.
2.1. Faça o levantamento dos recursos utilizados para explicitar a transição entre o sonho e o mundo pen¬sado.
2.2. Evidencie a realidade que privilegia na conclusão do poema.

3. "Não é com ilhas do fim do mundo, /Nem com palmares de sonho ou não, /Que cura a alma seu mal profundo,/ Que o bem nos entra no coração."
3.1. Explique o sentido dos versos transcritos.
3.2. Identifique os recursos estilísticos presentes nesses versos.


II

Comente, num texto bem estruturado de cem a duzentas palavras, a afirmação de Yvette Centeno, tendo em atenção a obra pessoana, nomeadamente a Mensagem.
A obra de Pessoa não é senão o esforço de uma vida em busca da sua alma: múltipla, repartida, no ponto mais exterior buscando o mais interior, intensamente.

Yvette Kace Cenleno, Hermetismo e Utopia, Lisboa, Salamandra, 1995


III

Resuma o excerto a seguir transcrito, constituído por trezentas e noventa e cinco palavras, num texto de cento e vinte e uma a cento e quarenta e uma palavras.
Antes de iniciar o seu resumo, leia atentamente as instruções dadas em final de pagina.


Poucos portugueses há que gostem de árvores. Tiram-lhes a vista... Querem o campo visual desafrontado como se temessem inimigo oculto.
De geração em geração, vai-se agravando esta sanha arboricida. Árvores isoladas, que cresceram e se desenvolveram livremente, dando nome e beleza a certos sítios, uma hoje, outra amanhã, foram sacrificadas a esse furor, porque eram árvores. Aquele pinheiro manso, aquele castanheiro, aquele cedro - já não existem. Foram degolados sem que ninguém os defendesse nem chorasse. O mais que se diz, em seu louvor, é que deram bons carros de lenha.
Esta árvore deve ir abaixo, porque está velha. Esta árvore deve ir abaixo porque estorva. Esta árvore deve ir abaixo porque não deixa ver quem vai na rua. Verdade é que nem a árvore está velha, nem estorva, nem impede que se vejam as pessoas que se querem ver. Mas, é árvore... Deve morrer porque teve a pouca sorte de ser árvore.
O homem antigo, se não amava as árvores, respeitava-as por instinto. Foi a maneira de nos legar algumas. O homem moderno põe em jogo uma espécie de inteligência para as destruir. Não quer que tenham fisiologia. Não admite que levantem passeios, nem arremessem folhas aos telhados. Quer que sejam inertes como candeeiros. Q homem actual deixará à posteridade em vez de árvores, pérgulas de cimento. Confunde urbanismo com desarborização. O urbanismo que pede verdura, é entre nós sinónimo de secura. Ninguém urbaniza sem pôr raízes ao sol.
Há quem diga que é preciso destruir árvores para dar lugar aos automóveis. Mas se o motor de explosão, com as suas exalações, destrói a saúde pública e a árvore é o seu contraveneno, é indispensável conciliar a existência do motor com a existência da árvore. É preciso que se acomodem ambas no espaço que lhes couber, sob pena de morrer¬mos envenenados.
Cada árvore é uma bica de oxigénio indispensável à vida. É, de mais a mais, filtro de gases tóxicos provenientes de combustões devidas ao nosso comodismo. Tais gases vão fazendo de cada povoado uma câmara de condenados ã morte. Os moradores de certos países parecem moribundos.
Só a árvore os poderá salvar.
Conviria convencer de tal verdade o nosso homem comum, que não olha as belezas da paisagem, mas é capaz de defender a beleza da sua pele. Só assim se poderão salvar as árvores que ainda existam em cidades e vilas portuguesas.

João Araújo Correia, Passos Perdidos



Nota:
Há uma tolerância de quinze palavras relativamente ao total pretendido (cento e seis palavras como limite mínimo e cento e cinquenta e seis como limite máximo). Para efeitos de contagem, considera-se uma palavra qualquer sequência de caracteres delimitada por espaços em branco, mesmo quando hifenizada. De acordo com este critério, o fragmento a seguir transcrito é constituído por nove palavras: "De/geração/em/geração,/'vai-se/agravando/esta/sanha/arboricida/".




24.8.08

Carta para Josefa, minha avó




Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal! Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e aos roubos dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.
Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando, se soubesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa, de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"
É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.

José Saramago, Deste mundo e do outro



I

1. Atenta no retraio da avó Josefa.
1.1. Propõe cinco adjectivos que resumam os elementos de caracterização contidos no primeiro parágrafo e que não tenham aí sido usados pelo autor.
1.2. Para evidenciar as características da avó o narrador recorre a alguns recursos estilísticos.
1.2.1. Encontra, nos dois primeiros parágrafos:
- uma hipérbole;
- uma comparação.
1.2.2. Explica o sentido das metáforas: "Trave da tua casa, lume da tua lareira... "
1.3. Explica a afirmação com que o narrador inicia o segundo parágrafo: "Não sabes nada do mundo."
1.4. Explicita o valor do conector sublinhado no excerto que se segue: "E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre."

2. Nos três últimos parágrafos do texto, o narrador refere-se, sobretudo, à sua incompreensão relativamente a alguns factos relacionados com a avó.
2.1. O que é que o narrador não entende?
2.2. Indica o fragmento textual em que se resume o mundo da avó Josefa.
2.3. "Mas disto entendo eu... "
2.3.1. Diz a que frases do texto se refere o pronome demonstrativo destacado.


II

1. Faz uma síntese do texto - que tenha entre 130 e 150 palavras - concentrando-te, especifica-mente, no retrato da avó Josefa e na forma como o neto se relaciona com ela.


23.8.08

CENA XVI


CENA XVI
Ditos, Duarte, Amália, Joaquina

Duarte -Ora com efeito! forte companhia fazem os tais Senhores! -O Senhor meu Sogro levanta-se no meio do almoço, e daí a um instante Milorde desaparece à segunda garrafa de champanhe.
Joaquina -Vieram procurá-lo.
Duarte- Não duvido... algum pobre rapaz que se achou em aperto... Que é preciso confessar... o tal sujeito é a criatura mais serviçal... E então sem nenhum interesse! - Diga-me uma coisa, amabilíssimo sogro, que fazemos nós esta manhã?
Brás Ferreira -Eu tinha vontade de sair; mas temos aqui uma visita, um amigo da família...
Duarte -Perdoe... eu não tinha tido o gosto de ver este senhor... É do Porto?
Brás Ferreira -É verdade.
Duarte -Ia jurá-lo... Nós, os das províncias do Norte, temos um ar de franqueza, um aberto de fisionomia... Se Vossa Senhoria se demorar em Lisboa, terei muito gosto de o acompanhar, de lhe servir de guia... Não faça cerimónia comigo... sinceramente lho peço... um amigo e meu sogro!...
General -Dou-lhe os parabéns, Senhor Brás Ferreira: o seu genro parece um rapaz extremamente amável.
Brás Ferreira (baixo ao general) -Espere, espere, e depois falará. (A Duarte) É preciso que saibas, meu caro amigo, que este senhor vem a Lisboa para negócios que tem na Secretaria da Guerra e precisa muito do valimento do general Lemos.
Duarte -Melhor... Dizem que é um homem justo e imparcial; e toda a gente o estima.
Brás Ferreira -Pois sim... mas tu, que tens relações de intimidade com ele, não podias pela tua influência?...
Duarte -Ah! certamente... terei a honra de lho apresentar. Há-de gostar dele, verá: um homem agradável e que, sem bazófia, é meu amigo.
Brás Ferreira (rindo) -Rem!
General (baixo a Brás Ferreira ) -Até aqui, acho que diz a verdade.
Duarte -E alegre!... Olhe: à mesa me não deixava ele só como aqui me fizeram. Ainda ontem almoçámos nós juntos em sua casa.
Brás Ferreira e General- Em casa dele?!
Duarte -Sim, juntos, ao pé um do outro.
Brás Ferreira -Então, muito mudado está ele de ontem para cá.
Duarte -Porquê?
Brás Ferreira (apontando para o general) -Porque ele aqui está, e tu não o conheceste.
Duarte (surpreendido) -O general Lemos!
Joaquina (aparte) -Estamos perdidos.
Amália -Tudo, tudo está perdido.
Duarte (tornando a si logo) -O quê? pois este é o senhor general Lemos? Muito sinto... ~ão tenho a honra de o conhecer.
Brás Ferreira -Não duvido... mas nem por isso deixa de ser ele em pessoa.
Duarte -Há-de-me perdoar, meu tio: eu não digo o contrário mas não foi com este senhor que eu almocei ontem... a verdade pura é esta. Como isto foi é que eu não sei; mas, a não ser que haja outro general Lemos em Lisboa...
General -Em Lisboa, do apelido de Lemos nem eu conheço senão meu primo, o coronel Francisco de Lemos.
Duarte -Exactamente. Pois foi em casa dele, decerto, que ontem me apresentaram, e provavelmente com ele é que eu almocei.
General -Não teria dúvida nenhuma em o acreditar, se não fosse uma pequena dificuldade: é que há três meses que está em Inglaterra.
Duarte (aparte) -Coa breca! (Alto) É que voltaria há pouco, sem se saber... porque ele ontem estava em Lisboa.
Brás Ferreira -Não estava.
Duarte -Estava tal.
Brás Ferreira -Pois bem, rapaz, esqueço-me de tudo... se me provares essa.


Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir


I

Completa as frases propostas com palavras tuas, a partir de informações textuais.
1. Duarte queixa-se. ..
2. O rapaz a que se refere Duarte. ..
3. Brás Ferreira não pode sair de casa. ..
4. Duarte oferece-se para. ..
5. O general fica agradado. ..
6. Brás Ferreira testa Duarte ao dizer-Ihe que...
7. Duarte não se mostra...
8. Duarte mente ao dizer que. ..
9. Brás Ferreira, triunfante, diz. ..
10. Joaquina e Amália. ..
11. Duarte apressa-se. ..
12. O general Lemos esclarece que. ..
13. Duarte não perde tempo: ...
14. Brás Ferreira faz-lhe um desafio ...


II

Atenta nas seguintes passagens textuais:
."Nós os das províncias do norte temos um ar de franqueza, um aberto de fisionomia. .."

."Há-de gostar dele, verá: um homem agradável e que, sem bazófia, é meu amigo."

."Há-de-me perdoar, meu tio: eu não digo o contrário; mas não foi com este senhor que eu almocei ontem... A verdade pura é esta. Como isto foi é que eu não sei; mas a não ser que haja outro general Lemos em Lisboa..."

1. Caracteriza Duarte, partindo das passagens textuais apresentadas.

2. Identifica a característica da personagem vincadamente repetida nas citadas passagens textuais.
2.1. Isola as expressões que documentam essa característica de Duarte.

3. Comenta a expressividade das reticências na caracterização da personagem.

4. Apoiando-te em passagens/expressões textuais, diz como Brás Ferreira e o General Lemos caracterizam Duarte.




18.8.08

CENA X


CENA X
Ditos e Amália


Amália (acudindo) -Oh meu Deus! que é isto?
José Félix (baixo a Amália) -Separe-nos, ande... (Alto) Eu não bato a mim.
Duarte -Mas mim bate a ti. Agora o veremos.
Brás Ferreira -E eu mando-te que te cales. Que tal está! Ai que eu!... (aparte) E eu que cuidava ao princípio que era uma brincadeira!... e o jogo é a valer. (A José Félix) O senhor é o ofendido...
Duarte - Não, senhor, o ofendido sou eu.
Brás Ferreira - Tu?! tu que o ias matando, aleijando pelo menos!
Duarte - Não é verdade.
José Félix - É verdade.
Brás Ferreira - É verdade, sim, senhor: a culpa é sua, não há que duvidar.
Duarte - Se meu tio o diz, não tenho remédio eu senão acreditá-Io.
Brás Ferreira - Ora graças a Deus! que confessou a sua culpa, e entrou na razão enfim. Da sua parte, Milorde, espero que desista, que se esqueça...
José Félix - Se o senhor está muito triste, very sorry, se não tinha intenxion...
Brás Ferreira - Não tinha, não.
Duarte - Não tive.
Brás Ferreira - Então vamos! Esqueça-se tudo; e em sinal de reconciliação, Milorde, há-de almoçar connosco.
Amália - Inda bem! respiro.
Duarte (aparte) - Verdade, verdade, não tenho muito de que me queixar. Inda eu lhe sou obrigado ao tal maganão que embirrou a fazer-me este serviço. (Alto) Oh lá! Joaquina, Isidoro! algum de vocês... É preciso mandar arranjar depressa alguma coisa...
Brás Ferreira - Para quê?
Duarte - Pois o senhor almoça connosco...
Brás Ferreira - Almoça: e então? Tu tens almoço em casa para um príncipe. Já te esqueceste?
Duarte - Ah! sim... decerto... Mas talvez um almoço de garfo... sem chá preto... sem manteiga fresca... não será de gosto de Milorde...
José Félix - Eu peço o seu perdão, Vóssinhorrie. O meu stomago é cosmopolitana, entende todos línguas, janta em francês, pórrtuguiz... não importa; almoça com Turquia se é preciso, e ceia sobre Peru, se Vóssinhorrie dá prazer.


Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir


I

1. Por que razão quer Brás Ferreira ser justo com Duarte?

2. Por que motivo Duarte referiu que tinha à sua disposição três lugares de primeira ordem para emprego?

3. É verdade que Duarte é director de um clube? Porquê?

4. Quem é Tomás José Marques? Como aparece na história?

5. Como se compreende que Tomás José Marques exija a Duarte o pagamento da décima e dos impostos anexos da casa que este lhe vendeu? (Relaciona este facto com o pedido de dinheiro que Brás Ferreira fez a Duarte.)

6. A propósito da recebedoria-geral de Santarém, Brás Ferreira pede desculpa a Duarte. Porquê?

7. Mentira sucede a mentira:
7.1. Conta, por palavras tuas, a história do duelo.

8. Milord Coockimbrook diz que o seu estômago é cosmopolitano.
8.1. Que crítica se pode fazer a este inglês?

9. Após o almoço, Joaquina fala sozinha.
9.1. Que importância tem o seu monólogo?

10. Que satisfação traz a Brás Ferreira o conhecimento que trava com o general?

11.8.08

CENA II


CENA II
Ditos e Amália

Amália - Joaquina! Joaquina! ando à tua procura. O Senhor Duarte ainda não veio?
Joaquina - Não, minha Senhora.
Amália - Que homem é esse com quem tu estavas a falar?
José Félix -Anda, apresenta-me como gente.
Joaquina - Minha Senhora, é aquele rapaz de quem lhe eu dizia no Porto...
Amália - Ah! já sei: o Senhor José Félix. Tens bom gosto, Joaquina. O pior é que se vocês não têm de casar senão quando o meu casamento se fizer, tenho muito medo que ainda esperem bem tempo.
Joaquina - Então porquê, minha Senhora?
Amália - Ora! estou desesperada, transtomou-se tudo; meu pai quer quebrar com ele.
Joaquina - Com o Senhor Duarte?
Amália - Sim; pois com quem?
José Félix (aparte) - Meu Deus! e as nossas cem moedas!
Joaquina - Não é possível: a mesma família, a mesma riqueza, um casamento tão igual, tão acertado... Seu pai não se há-de atrever.
Amália - Nada, não! Veio a Lisboa - agora é que o eu sei bem - só para achar pretexto de o desmanchar.
Joaquina -Pois não o há-de achar. O Senhor Duarte é um rapaz como há poucos. Juízo não lhe falta: suas doidices... não é, é pancada da mocidade. Isso passa depressa. Bom coração... não o há melhor. Quer a senhora saber? O mal que ele faz é por moda... todos assim são... e o bem que ele faz, que é muito, esse, minha Senhora, não é moda que pegue.
Amália - Pois sim; mas já que falamos nos seus defeitos, sempre te digo que ele tem um, que se meu pai o vem a descobrir... Tenho-lho encoberto até agora, mas se ele o chega a conhecer, acabou-se, nunca mais lhe perdoa. Meu pai é um negociante dos antigos, que leva a honra e probidade, a lisura e a verdade no trato, a um ponto de severidade que é quase rudeza... e Duarte é muito bom rapaz, não há dúvida; mas não sei se é distracção se é doidice, tomou o costume de nunca dizer uma palavra que seja verdade.
José Félix - Percebo: tem viajado muito...
Joaquina - Não, mas é morgado, e de raça quase castelhana...
José Félix - Entendo, entendo: echelas usted más blandas.
Joaquina - E demais a mais, há seis meses que está em Lisboa...
José Félix - Onde todos os talentos se aperfeiçoam.
Amália - Enfim, meu pai declarou que à primeira mentira bem clara, bem provada em que o apanhasse, tudo estava acabado.
José Félix -Ora adeus! O Senhor seu Pai, com efeito... ele ainda é parente, bem se vê, há-de ter sua costela espanhola... O seu projecto é outra espanholada também... Querer impedir que um rapaz de tom, da moda, pregue a sua peta!... isso é mais do que formar castelos em Espanha, é querer meter o Rossio pela Betesga.
Amália - Meu pai é que o não entende assim: e eu não sei como hei-de avisar a Duarte.
Joaquina - Vou eu pôr-me à espera dele. Não tarda a vir por aí; e antes que entre e que fale com seu pai, hei-de avisá-Io que tome conta em si, e que não dê notícias senão as que forem oficiais... a ser possível.
Amália - Cala-te: oiço falar no quarto de meu pai; é a voz de Duarte.
Joaquma - E que entrou pela outra escada.
Amália -Está tudo perdido! Se ele falou com meu pai... aposto que já... Nunca vi: é que não pode, mente por hábito e sem saber o que faz.
Joaquina - Então agora o que se podia... o que era de mestre, era fazer que o Senhor Brás Ferreira o não conhecesse. Por fim de contas, a nós que nos importa que ele minta, contanto que seu pai o não perceba?
José Félix - Ela tem razão, a Joaquina. E é mais fácil isso. Se a Senhora D. Amália se confia em mim, e me autoriza...
Amália -Oh meu Deus! Se vocês encobrem aquele defeito a meu pai, fico-lhes numa obrigação... Depois, em nós casando, eu emendarei. Que se não fosse isso...
José Félix - Está claro, minha Senhora. Mas agora é preciso que o Senhor Duarte me não veja. Eu é que se pudesse ouvi-lo, e fazer assim ideia do seu modo.
Joaquina (apontando para uma alcova, à direita) - Ora! ...aquela alcova. ..e tem uma porta que dá direita na escada... Eles aí vêm: entra depressa, esconde-te.

Almeida Garrett, Falar Verdade a Mentir


Apesar da falta de cores, pode-se perceber que o cenário é cheio de detalhes.


I

1. Duarte não resiste á tentação de mentir.
1.1. De que forma estas mentiras contribuem para a caracterização psicológica de Duarte?

2. Que processo de caracterização é utilizado?

3. A sucessão de mentiras gera um processo de comicidade.
3.1. Como classificas o processo de cómico utilizado?

4. Como interpretas as reacções de Brás Ferreira e Joaquina à suposta morte da marquesa?

5. Que título propões para esta cena? Justifica a tua resposta.

10.8.08

CENA I


CENA I
Joaquina, José Félix


Joaquina - Entre, Senhor José Félix, entre. Isto são umas madrugadas!... Para uma pessoa como o senhor José Félix, o criado particular de um fidalgo da corte! Lá por fora ainda mal são nove horas...
José Félix - Nove horas... e fidalgo da corte!... Recolha o seu espírito, senhora D. Joaquina. Meu amo é general, estamos de acordo; nove horas deram há muito. Mas cá em Lisboa contam-se as horas e os fidalgos por outro modo. Lá na província, minha querida Joaquina...
Joaquina - Ai, como tu estás tolo! A província, a província... Ora isto! Saiba que eu que venho do Porto, senhor José Félix, que é a segunda capital do reino, e a cidade eterna, como dizem os periódicos. Província será a sua terra de você, que há-de ser a Lourinhã, ou a aldeia de Paio Pires, ou coisa que o valha. E então?..
José Félix - Basta, Joaquina, basta; recolhe o teu espírito, que já aqui não está quem falou. Soube ainda agora que tinham chegado ontem à noite no vapor, que estavam aqui nesta hospedaria, que é pegada quase com a nossa casa; e vim logo, minha adorada Joaquina, reclamar o prémio de onze meses de eternas saudades.
Joaquina - E você, vamos a saber, você tem sido constante, fiel?..
José Félix - Horrivelmente fiel! Maldição, Joaquina, maldição!...
Joaquina - Que diz ele?
José Félix -Se tu vens da!... da província não. Não, Joaquina, tu não vens da província, vens da cidade eterna... Virás. Maldição eterna sobre quem o duvidar! Mas vens, vens donde ainda se não sabe a língua das românticas paixões, dos sentimentos copiados do nu da natureza como nós cá a temos na Rua dos Condes, e nos folhetins das folhas públicas, que são o órgão da opinião incomensurável dos séculos.
Joaquina - Se te eu entendo...
José Félix - A h ! tu não entendes? Bem, Joaquina, bem. Nem eu: nem ninguém. Por isso mesmo, Joaquina. A moda é esta. Deixa: em tu estando aqui oito dias, ficarás mais perfeita do que eu; porque a tua alma de mulher é feita para compreender o meu coração de homem. E então, vês tu? Oh Joaquina, anjo, mulher, sopro, silfo, demónio! eu amo-te! amo-te, porque...
Joaquina - Cruzes!
José Félix - Não me interrompas, não me interrompas, deixa ir. Silfo, anjo, sopro, mulher, amo-te porque o meu coração está em brasa, e tenho umas veias, e estas veias têm umas artérias... e estas artérias têm... não têm, as artérias não têm nada; mas batem, batem como os sinos que dobram pelo finado na hora do passamento, que é morrer, morrer, morrer... oh Joaquina, morrer! E que é a morte? É a vida que cai nos abismos estrepitosos da Eternidade, que é, que é...
Joaquina - Isso é comédia, ou tu estás a mangar comigo?
José Félix - Isto é o drama das paixões, que o sentimento, a verdade...
Joaquina - Pois olha: tinha uma coisa muito séria que te dizer; mas como tu estás doido, adeus!
José Félix - A poesia da vida é esta, Joaquina. Mas... mas passemos à vil prosa dos interesses materiais do País, se é preciso. Vá. Far-te-ei mais esse sacrifício. Que exiges tu de mim?
Joaquina - Que deixes essas patetices agora e oiças. Meu amo, o Senhor Brás Ferreira, que é um ricaço como tu sabes, um daqueles negociantes do Porto que têm dinheiro como milho, vem de propósito a Lisboa para casar a menina. É uma filha única e morre por mim, coitada! É um anjo! Prometeu-me que no dia em que se assinassem as escrituras tinha eu o meu dote.
José Félix - Dote! Céus! um dote... Oh Joaquina, pois tu tens um dote?.. Não quero saber de quanto. Quem, eu? Maldição sobre mim!
Joaquina - Cem moedas.
José Félix - Oh! seja o que for, que me importa. O amor, o amor verdadeiro não conta os pintos do objecto amado... Não... E é em dinheiro de contado, sonante, Joaquina?
Joaquina - Sim, senhor.
José Félix - Melhor: porque bem vês, com a minha educação, um rapaz que emigrei, estive em Paris, e hoje sou cr.iado particular de um general... habilitado para ser mordomo de um clube dos de primeira ordem - a Galocha já eu recusei - bem vês, não podia formar uma aliança que me não desse os meios de sustentar a posição social em que me acho colocado. Mas tu tens dote; acabou-se. Recolho o meu espírito e estendo a minha mão.
Joaquina - Ai, José Félix! mas o casamento de minha ama ainda não está feito.
José Félix - Pois que há... que impedimentos?
Joaquina - Não sei... quando vínhamos no vapor, pareceu-me, vi que havia transtorno. O pai e a filha tiveram suas coisas a esse respeito e a menina anda triste, desassossegada. Estou certa que há impedimento grande, há obstáculos...
José Félix - Obstáculos! Não há, não os pode haver. A minha paixão, a nossa felicidade, cem moedas sonantes, mil pintos, cos diabos! absolutamente não pode deixar de ser, há-de-se fazer este casamento, Joaquina... A honra, a delicadeza, tudo lhe ordena, Senhora Joaquina, que vá já desenganar o papá. E se é preciso que eu tome parte na questão...
Joaquina - O caso era saber a gente o que é, e onde a coisa pega... Mas espere; olha, aí vem a Senhora D. Amália: deixa-te tu estar e... Mas não vás tu fazer falta em casa a teu amo.
José Félix - Meu amo! Toma. Tu estás muito atrasada, Joaquina. Meu amo é um cavalheiro, um general, uma pessoa da primeira sociedade, portanto costumado a fazer esperar os outros, e a esperar ele pelos seus criados, que é a regra. Além disso, eu tenho licença por todo o dia, que houve lá uma coisa em casa... A senhora chorou, o senhor ralhou. Eu te contarei noutra ocasião, que hás-de rir. O caso é que hoje tenho o dia por meu. Ela aí vem, a tua ama. Vem triste, coitada! Firme, Joaquina! Olha que a coisa é séria para ti, um dote e um marido
!

Almeida Garret, Falar Verdade a Mentir



I

1. Começa por estudar as personagens que aparecem na Cena 1.
1.1. Preenche a grelha.


1.2. Refere a relação que existe entre as duas personagens. Apoia a tua resposta em expressões textuais.

2. Indica o motivo que leva José Félix a visitar Joaquina. Justifica a tua resposta.

3. Joaquina informa-o de uma novidade que interessa aos dois.
3.1. Identifica-a.

4. Diz como interpretas a última intervenção de José Félix.

5. Situa a acção no tempo e no espaço.

6. Recorda o estudo que fizeste dos níveis de língua
6.1 .Identifica e justifica os níveis de língua utilizados nas expressões:
6.1.1. "Recolha o seu espírito, Senhora D. Joaquina."
6.1.2. "Lá na província, minha querida Joaquina. .."
6.1.3. "Mas. ..mas passemos à vil prosa dos interesses materiais do país, se é preciso."
6.1.4. "(. ..) Um daqueles negociantes do Porto que têm dinheiro como milho (...)."

7. Analisa sintacticamente as frases:
7.1 "Meu amo é general (. ..)."
7.2 "(. ..) O senhor Brás Ferreira (. ..) Vem (. ..) A Lisboa para casar a menina."
7.3 " (. ..) O amor verdadeiro não conta os pintos do objecto amado."
7.4 "Oh Joaquina (...) Tu tens um dote?.."


6.8.08

Lenda da vitória-régia




Estava uma noite muito quente. O luar era tão claro, que se enxergava quase como se fosse de dia. Perto da lagoa havia uma importante tribo de índios, que hoje já não existe. Entre os índios, havia um velho chefe, muito procurado pelas crianças, que gostavam de ouvir as suas histórias.
Como a noite estava quente e o luar muito lindo, o velho cacique tinha-se s sentado muito per-to da lagoa, para descansar e apreciar aquela beleza. Logo que as crianças descobriram que ele estava ali, foram sentar-se perto dele. Pediram que lhes contasse uma história. O cacique, porém, estava tão distraí¬do, admirando a vitória-régia, que nem se apercebera da chegada das crianças. (...) Por fim sorriu-lhes.
- O que estava a ver com tanta atenção? - perguntou uma.
- Aquela estrela! Aquela bonita estrela - respondeu o cacique, apontando para a vitória-régia.
As crianças ficaram admiradas e trocaram um olhar significativo. A vitória-régia era uma estrela? Pobre cacique! Ele percebeu o espanto das crianças e disse-lhes:
- Não tenham medo! Não fiquei doido, não. Não acreditam que a vitória-régia seja uma estrela? Então ouçam:
Há muitos e muitos anos, nem eu sei quantos, na nossa tribo vivia uma índia, muito jovem e muito bonita, a quem tinham contado que a lua era um guerreiro forte e poderoso. A moça apaixonou-se por esse guerreiro e não quis casar-se com nenhum dos índios da tribo. Não fazia outra coisa senão esperar que a lua surgisse. Aí, então, punha os olhos no céu e não via mais nada. Só o poderoso guerreiro. Muitas vezes, ela saía a correr pela floresta, os braços erguidos, procurando agarrar a lua.
Todos na tribo tinham pena da índia, pena de vê-la dominada por um sonho tão louco.
E o tempo foi passando... contudo, o sonho não deixava a pobre moça em paz. Queria ir para o céu. Queria transformar-se numa estrela, numa estrela tão bonita, que fosse admirada pela lua. Mas a lua continuava distante e indiferente, desprezando o desejo da jovem. Quando não havia luar, a rapariga permanecia aborrecida na sua oca, sem falar com ninguém. Eram inúteis os esforços dos amigos e parentes para que ela ficasse com as outras moças. Continuava recolhida, silenciosa, até a lua aparecer novamente.
Numa noite em que o luar estava mais bonito do que nunca, transformando em prata a paisagem da floresta, a moça repetiu a sua tentativa. Chegando à beira da lagoa, viu a lua reflectida no meio das águas tranquilas e acreditou que ela tinha descido do céu para se banhar ali. Finalmente, ia conhecer o famoso e poderoso guerreiro. Sem hesitar, a índia atirou-se às águas profundas e nadou em direcção à imagem da lua. Quando percebeu que tinha sido ilusão, tentou voltar, mas as forças faltaram-lhe e morreu afogada.
A lua, que era, como eu disse, um guerreiro forte e poderoso, uma espécie de deus, viu o que tinha acontecido e ficou compadecida. Sentiu remorso por não ter transformado a formosa índia numa estrela do céu. Agora era tarde. A moça ia pertencer, para sempre, às águas pro-fundas da lagoa. Porém, já que não era possível transformá-la numa estrela do céu, como ela tanto desejara, podia transformá-la numa estrela das águas. Uma flor que seria a rainha das flores aquáticas.
E, assim, a formosa índia foi transformada na vitória-régia. À noite, essa só maravilhosa flor abre-se, permitindo que a lua a ilumine e revele a sua impressionante beleza.

Histórias e Lendas do Brasil (adaptação)


I

1. Podemos identificar nesta lenda dois narradores. Indica o momento em que o segundo narrador assume protagonismo no relato da lenda.
1.1. Refere todos os elementos que permitem caracterizar esse narrador.

2. Onde e quando vai ser contada a lenda da vitória-régia?
2.1. Quem a vai ouvir?

3. Considera a lenda que vai ser contada e indica as personagens que participam na acção, distinguindo as individuais e as colectivas, por um lado, e as humanas e não humanas, por outro.

4. Para cada uma das afirmações seguintes, identifica passagens textuais que as justifiquem.
a. A lenda da vitória-régia tem origens muito remotas.
b. Trata-se de uma lenda em que o amor, o sonho e a compaixão dominam as acções das personagens.
c. Há diversas referências a espaços onde decorre a acção.
d. Nesta lenda é possível identificar os elementos do maravilhoso ou da fantasia popular.
e. Nesta história podemos encontrar recursos expressivos como a personificação e a adjectivação.

II

1. Retira do texto:
a. uma frase de tipo interrogativo;
b. uma frase de tipo exclamativo;
c. uma frase de tipo imperativo.

2. Classifica os seguintes adjectivos quanto ao género e ao número:
a. "quente"
b. "jovem "
c. "bonita"
d. "impressionante"

3. Retiramos as seguintes frases do texto:
a. "Pobre cacique!"
b. "Finalmente, ia conhecer o famoso e poderoso guerreiro. "
3.1. Se reparares, em ambas as frases os adjectivos surgem antes do nome que qualificam. Que efeitos é que esta ordem menos habitual provoca em termos de significado?



1.8.08

Mestre Finezas




Uma noite Mestre Finezas morreu logo no primeiro acto. Foi um desapontamento. Todos criticaram pelo corredor, no intervalo. «O melhor artista morrer mal entra em cena!...Não está certo! Agora vamos gramar quatro actos só com canastrões!», dizia o doutor delegado a meu pai. (…)
Volto a cabeça e olho-o. Sei o que vai dizer-me. Vai falar-me do abandono a que o votaram. Vai falar-me do teatro, da música, da poesia. Vai repetir-me que a arte é a mais bela coisa da vida. Mas não. Já nos entendemos só pelo olhar. Mestre Finezas salta por cima de tudo isto e ergue a navalha num lance teatral:
- Que sabem eles da arte? Tu que estudaste, tu sabes o que é a arte. Eles hão-de morrer sem nunca terem gozado os mais belos momentos que a vida pode dar.
Atravessou a loja, abriu um armário cavado na parede, e tirou o violino.
- Eu não disse nada, Carlinhos, mas, olha, tenho vendido tudo para não morrer de fome…Tudo. Mas isto!...
Estendeu o violino na minha direcção e continuou, reprimindo um soluço:
-Isto nem que eu morra!...É a minha última recordação… (…)
(…) Lentamente, o fio de música ia engrossando. Era agora mais forte – agudo, desamparado como um choro aflito. (…)
De súbito, uma revoada de notas soltaram-se, desencontradas, raivosas. Encheram a loja, e ficaram vibrando.

In Aldeia Nova, Manuel da Fonseca


I

1. Quais as diferenças no enquadramento social passado da personagem Mestre Finezas e no presente?
1.1. Em que é que isso contribuiu para o retrato da personagem no presente?

2. Diz quais os modos de representação do discurso que podes encontrar no excerto e dá um exemplo para cada um deles.

3. Tendo em conta a profissão e os seus momentos de glória no palco e na música, justifica o nome Mestre Finezas.

4. Repara na frase transcrita: «Agora vamos gramar quatro actos só com canastrões!»
4.1. Identifica o registo de língua da palavra destacada.
4.2. Utilizando vários registos de língua, encontra sinónimos do verbo gramar e completa o Presente do Indicativo com as restantes pessoas gramaticais.

Eu ______________
Tu ______________
Ele ______________
Nós gramamos
Vós _____________
Eles _____________


II

A partir do modelo de uma receita culinária e seguindo todos os seus passos, cria uma «Receita para enfrentar a velhice com alegria».